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Pais veem alguns alimentos ultraprocessados como saudáveis, diz Unicef

Redação by Redação
abril 6, 2026
in BRASIL
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Segundo o levantamento, feito em parceria com a Novo Nordisk, 52% consideram iogurtes com sabor saudáveis e 49% acham o mesmo de “nuggets” feitos na fritadeira elétrica. Alimentos como suco com açúcar (68%) e peixe frito (63%) passam pela mesma percepção

( JT) – Estudo divulgado pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) sobre o consumo de alimentos ultraprocessados por crianças de até 6 anos no Brasil mostra que cuidadores frequentemente percebem alguns desses produtos como saudáveis para a saúde das crianças.

Segundo o levantamento, feito em parceria com a Novo Nordisk, 52% consideram iogurtes com sabor saudáveis e 49% acham o mesmo de “nuggets” feitos na fritadeira elétrica. Alimentos como suco com açúcar (68%) e peixe frito (63%) passam pela mesma percepção.

O público participante reside em três comunidades urbanas: Guamá, em Belém; Ibura, em Recife; e Pavuna, no Rio de Janeiro. Na etapa qualitativa participaram 80 pessoas, entre mães ou cuidadoras e líderes comunitários. Já na etapa quantitativa, 514 responsáveis responderam questionários. A análise dos dados foi feita a partir do Modelo de Determinantes Comportamentais (BDM) do Unicef, que analisa o comportamento a partir de fatores psicológicos, sociológicos e ambientais/estruturais.

O relatório da pesquisa afirma que os responsáveis conseguem diferenciar alimentos saudáveis dos não saudáveis, mas a composição e o preparo dos alimentos afeta a percepção, como o uso de fritadeira elétrica, por exemplo. Além disso, termos como “processado” ou “ultraprocessado” não aparecem na fala das entrevistadas.

Em 2022, o Brasil implementou a rotulagem nutricional frontal, que visa alertar quando um alimento possui alto teor de açúcar, sódio e gordura, mas 55% dos entrevistados afirmam que nunca olharam para essa “lupa” antes de comprar um produto. Além disso, 62% afirma que nunca deixou de comprar um produto devido a informação nutricional ou selos de alerta e 8% acreditam que o produto com essa rotulagem é, na verdade, mais saudável.

“A ideia da rotulagem frontal é justamente te ajudar a fazer escolhas alimentares saudáveis de uma forma mais facilitada, mas isso não está acontecendo”, afirma Stephanie Amaral, oficial de saúde e nutrição do Unicef no Brasil. “Historicamente não se tem um entendimento e o que falta é uma educação nutricional, até hoje não foi feita uma estratégia de comunicação para o entendimento principalmente com as pessoas de baixa escolaridade.”

Essa desinformação é baseada em estratégias de divulgação da indústria alimentícia, aponta Raphael Barreto da Conceição Barbosa, pesquisador da Ensp/Fiocruz (Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca) e professor da Escola de Enfermagem da UFF (Universidade Federal Fluminense). Segundo ele, a presença de imagens de frutas, produtos in natura, selos de produto vegano ou sem glúten contribuem para esse falso entendimento.

Em relação à rotulagem frontal, ele olha com positividade o fato de, apesar de 55% ignorarem a lupa, 45% dos participantes já mudou alguma escolha alimentar em função do alerta. “A rotulagem frontal é uma norma recente que teve uma baixa divulgação sobre a sua implementação, apesar de ser bem direta.”

Outros fatores sociais, como preço dos produtos e sobrecarga materna também são relacionados à alta de consumo de ultraprocessados. A primeira etapa do estudo acompanhou mães e cuidadoras, já que a PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2022 mostra que cerca de 90% das mães são responsáveis por comprar e oferecer alimentos às crianças.

Essa centralidade nas decisões alimentares e de atividade física está associada a uma sobrecarga das mães e a uma limitação de redes de apoio, aponta o estudo do Unicef. Sobrecarga essa que, inclusive, favorece o consumo de ultraprocessados pela busca por praticidade.

Barbosa destaca que, em conjunto com a questão de gênero, há o olhar para o componente racial. As mulheres negras, afirma, têm constantemente uma opressão de classe, raça e gênero. “Muitas vezes elas trabalham com atividades relacionadas à alimentação e o cuidado doméstico e, quando voltam para casa, precisam também cuidar desses filhos, cuidar dessa casa e dessa alimentação, recaindo sobre elas todas essas opressões de forma conjunta.”

Ele cita o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, que destacou que a insegurança alimentar atingiu o dobro dos lares chefiados por pessoas negras, na comparação com aqueles encabeçados por brancos, e a situação fica ainda mais severa em casas lideradas por mulheres negras.

Amaral destaca que outro ponto observado na fala dos participantes é a relação do consumo de ultraprocessados com a parte financeira, levando em consideração que esses produtos são geralmente mais baratos que alimentos in natura.

Ela acredita que a solução não seria tão simples quanto diminuir os preços dos alimentos naturais, já que o discurso dos entrevistados mostra uma compensação emocional no oferecimento de ultraprocessados para crianças, como se fossem sinal de uma infância feliz.

Barbosa complementa que é compreensível que, para muitas dessas pessoas, o consumo de ultraprocessados seja considerado uma conquista. “Por muito tempo esse produto não era acessível financeiramente, e agora que ele se torna acessível há grupos dizendo que eles fazem mal à saúde, como se fosse uma outra forma de negação para eles”, afirma.

Os especialistas concordam que essa percepção dos ultraprocessados como conquista indica que é preciso desmistificar crenças importantes, informando a população de que hoje a formulação dos ultraprocessados são mais nocivos à saúde não só a longo prazo, com mais químicos e aditivos, com educação e comunicação em saúde, a começar pelas escolas.

No relatório, o Unicef reforça a necessidade de fortalecer a regulação de alimentos ultraprocessados por crianças e adolescentes no Brasil, incluindo a publicidade infantil, a tributação desses alimentos e a promoção de ambientes escolares saudáveis a fim de reduzir a exposição desses produtos.

Para controlar o aumento do consumo desses produtos, a entidade também propõe expandir creches e escolas em tempo integral, para ampliar o acesso à alimentação adequada e reduzir a sobrecarga das famílias; garantir segurança e manutenção de espaços públicos; fortalecer a orientação nos serviços de saúde; apoiar iniciativas comunitárias, como hortas, feiras locais e projetos esportivos; ampliar o uso da rotulagem frontal nos alimentos ultraprocessados e investir em comunicação para mudança de comportamento.

Apesar de afirmar que Brasil apresenta uma evolução positiva em relação à segurança alimentar, ressaltando que o país saiu do mapa da fome da ONU (Organização das Nações Unidas), ainda há muito a ser feito.

Barbosa complementa defendendo que é necessário tomar um conjunto de medidas, como manter refrigerantes e bebidas açucaradas no imposto seletivo e avançar para incluir ultraprocessados em geral. Além de ampliar o acesso a alimentos saudáveis em territórios vulneráveis, redes públicas de abastecimento e feiras em comunidades, proibição efetiva de ultraprocessados no ambiente escolar e maior disseminação dos guias alimentares do Ministério da Saúde.

Pais veem alguns alimentos ultraprocessados como saudáveis, diz Unicef

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