BERLIM, ALEMANHA (JORNAL DA TARDE) – Se abril teve a segunda temperatura mais alta para o período na superfície dos oceanos, o mês seguinte fez o serviço completo: tanto em terra como no mar, o maio de 2026 foi o segundo mais quente da história. A informação consta do último levantamento do serviço Copernicus, da União Europeia, que monitora a mudança climática no planeta.
Segundo o relatório, publicado nesta quarta-feira (10) no horário europeu, maio alcançou uma temperatura média de 15,81°C, 0,55°C acima da média registrada para o mês em relação ao período de referência 1991-2020. A marca foi inferior apenas a maio de 2024 (15,91°C); derrubou da segunda posição o mês de maio de 2025 (15,79°C), que, por sua vez, tinha superado o de 2023 (14,94°C).
Foi justamente entre 2023, o segundo ano mais quente já registrado, e 2024, o primeiro, que ocorreu pela última vez o El Niño, com notáveis 13 recordes mensais de temperatura. Previsto para voltar no segundo semestre deste ano, o fenômeno cíclico propicia aumentos de temperatura e regimes de chuva irregulares. A depender do local, podem ocorrer secas extremas ou maior volume hídrico.
As secas amazônicas e a enchente histórica no Rio Grande do Sul, há dois anos, são exemplos recentes de como a condição climática pode agravar os efeitos do aquecimento global e o despreparo de governos e sociedades.
Em maio, as temperaturas foram excepcionalmente altas na região tropical do Pacífico, próximo à sua porção equatorial, onde ocorre a formação do El Niño. Os cientistas acompanham o desenvolvimento da condição climática em uma área específica dessa região, chamada Niño 3.4.
Segundo análise da Noaa, agência climática dos EUA, sua chance de ocorrência já é de 82% a partir de julho. “O mundo deve tratá-lo como o alerta climático urgente que é. As condições do El Niño irão intensificar ainda mais o aquecimento global”, declarou na semana passada António Guterres, secretário-geral da ONU.
“Seus impactos serão mais severos, se espalharão para mais longe e atravessarão fronteiras com velocidade devastadora.”
Segundo Celeste Saulo, secretária-geral da OMM (Organização Mundial de Meteorologia), o evento será “potencialmente forte”. “O El Niño mais recente foi um dos cinco mais fortes já registrados e contribuiu para as temperaturas globais recordes observadas em 2024.”
Até aqui, porém, a responsabilidade das recentes marcas mensais cabe essencialmente à crise climática, provocada sobretudo pela queima de combustíveis fósseis.
“Em maio, tivemos temperaturas quase recordes tanto na atmosfera quanto nos oceanos”, declarou Samantha Burgess, líder do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF, na sigla em inglês). “Na Europa, uma onda de calor precoce e intensa demonstra como rapidamente os extremos climáticos estão se tornando um novo normal.”
No fim de maio, o continente experimentou uma virada no tempo, de condições abaixo da média para recordes de temperatura em países como Reino Unido, Irlanda, França e Portugal. Foi a terceira primavera mais quente da Europa, segundo o Copernicus, com os termômetros alcançando médias acima de 38°C em várias regiões.
Salientando a difícil posição europeia, continente que sofre o aquecimento mais acelerado no planeta, o relatório mostra ainda os contrastes provocados pela mudança climática, como condições mais secas do que a média em países como Itália e Espanha e mais úmidas no nordeste europeu, Escandinávia, Turquia e região do mar Negro.
Ao alertar sobre o El Niño, Guterres reiterou que “a única resposta eficaz é uma ação climática à altura da crise”. Segundo o secretário, “acabar com a dependência dos combustíveis fósseis, acelerar a transição para energias renováveis, proteger os mais vulneráveis e garantir sistemas de alerta precoce para todos” são medidas urgentes.








