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Plano de Musk para data center espacial de US$ 2,4 tri pode comprometer observação do céu

Alisson Sakamoto by Alisson Sakamoto
junho 12, 2026
in TECNOLOGIA
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SÃO PAULO, SP (JORNAL DA TARDE) – A companhia aeroespacial SpaceX, de Elon Musk, quer pôr em órbita uma rede de data centers que pode elevar o número de satélites em órbita de menos de 20 mil para mais de um milhão nos próximos nove anos.

Esse plano se destaca no portfólio que Musk apresentou a investidores no pedido de oferta pública inicial na Bolsa (IPO, na sigla em inglês) da SpaceX -as ações, precificadas em US$ 135, começam a ser negociadas no mercado nesta sexta-feira (12) às 9h30. A empresa captou US$ 75 bilhões no maior IPO da história

O negócio de data centers pode valer US$ 2,4 trilhões, estima a empresa, que pretende iniciar os lançamentos em 2028. Astrônomos se opõem ao projeto e dizem que haveria mais satélites iluminados no céu noturno do que estrelas visíveis até 2035.

Eles criticam danos à visibilidade das estrelas no céu noturno, possíveis efeitos no ciclo de sono dos animais devido à iluminação noturna, danos ambientais por causa dos milhões de lançamentos espaciais necessários para manter a tecnologia funcionando, além da falta de regras para um empreendimento do tipo.

A professora de astronomia da Universidade de Regina, no Canadá, Samantha Lawler fez uma simulação, a pedido da reportagem, do efeito que a nova constelação de satélites teria no céu de São Paulo. Durante o solstício de verão, em 21 de dezembro, quando a iluminação solar atinge seu pico no hemisfério sul, o número de satélites da SpaceX visíveis saltaria de zero para 14.072.

“Nós ainda subestimamos os tamanhos dos satélites, de acordo com os dados que a SpaceX apresentou posteriormente, após o encerramento do período de comentários da FCC”, disse Lawler. Na latitude do Canadá, onde foi feito o estudo original, o número de satélites se aproximaria dos 40 mil -ante cerca de 5.000 estrelas visíveis.

O projeto ainda depende de uma licença da FCC (Comissão Federal de Comunicações), órgão regulador americano sob o controle de Donald Trump. Em fevereiro, a agência encaminhou a proposta de Musk para avaliação pública em tempo recorde: quatro dias entre a entrega dos documentos e a abertura para comentários, em março. Uma startup apoiada por Google e Nvidia, a Starcloud, fez pedido similar ao da SpaceX para 88 mil satélites no início de fevereiro, mas ainda não houve consulta pública.

Esse intervalo costuma levar de semanas a meses, de acordo com astrônomos e concorrentes ouvidos pela reportagem. Eles dizem que a proposta nem sequer deveria ser aceita devido à falta de detalhes sobre os satélites e as trajetórias de suas órbitas.

A maioria das pessoas que já conhecia o projeto antes do IPO se mostrou contrária à ideia durante a tomada de decisão pela FCC realizada em março. O trâmite reuniu 1.533 petições de 1.464 pessoas e entidades, incluindo astrônomos premiados, ambientalistas, jornalistas especializados e entusiastas da observação noturna. Em números aproximados, dez a cada 11 posicionamentos são contra o projeto.

Um dos argumentos da SpaceX para pleitear a permissão seria de que enviar os computadores ao espaço resultaria em economia de água e eletricidade. O outro é de que a rede de data centers satelitais entregaria serviços digitais com baixa latência em todo o mundo. Nos complexos tradicionais, quanto mais longe está o contratante do serviço, quer seja um pagamento via Pix ou o acesso a um filme no streaming, mais demora para o processamento acontecer.

Esses, diz a empresa de Musk em seu documento de apresentação ao mercado financeiro, serão os pilares do futuro da inteligência artificial.

Hoje, o lançamento de satélites requer permissão apenas do regulador local de telecomunicação -no caso da SpaceX, trata-se da FCC. As normas americanas não incluem critérios para avaliar a iluminação no céu ou o risco de reentrada dos satélites.

Os defensores, em geral americanos que não mencionam credenciais de pesquisa, defendem a economia de água, ao diminuir a demanda por data centers na superfície.

Em documento enviado à FCC, a empresa de Musk afirma que seus data centers estariam em uma órbita tal que haveria disponibilidade de radiação para geração de energia solar quase todo o tempo.

O professor de astronomia Hanno Rein, da Universidade de Toronto, chama as vantagens ambientais citadas pela SpaceX para defender seu data center espacial de “o maior greenwashing da história”. Isto é, uma estratégia de propaganda enganosa de sustentabilidade.

Segundo o astrônomo, haveria lançamentos em uma quantidade jamais vista caso a FCC aprove o pedido. “Como os chips necessários na inteligência artificial ficam obsoletos rapidamente, esses equipamentos teriam que ser trocados com frequência.”

Rein afirma que cada lançamento espacial libera grandes quantidades de gases do efeito estufa na atmosfera. Um único voo do Falcon 9 teve emissões estimadas em 28 mil toneladas de gás carbônico equivalente, de acordo com estudo da Glasgow Caledonian University.

Os satélites, diz Rein, ainda serão maiores do que os atuais modelos da SpaceX para garantir a geração de energia solar e o resfriamento por meio de radiação, uma vez que não há água nem ar no espaço.

Diferente das cenas gélidas de astronautas em Marte dos filmes de ficção científica, as temperaturas na órbita terrestre podem ser elevadas dependendo do nível de exposição ao sol. Os chips geram muito calor e, sem resfriamento, fritam quando passam dos 90 graus Celsius.

Por causa do efeito global do lançamento de satélite, a liberação cabe a uma entidade internacional subordinada à ONU (Organização das Nações Unidas), a UIT (União Internacional de Telecomunicações). Porém, os países-membros decidiram que a aprovação de novos satélites fosse delegada aos órgãos locais, como a FCC e a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações).

“A FCC pode simplesmente liberar 1 milhão de satélites para uma empresa americana, nos moldes atuais cada entidade nacional tem esse poder”, resume Lucas Fonseca, o CEO da empresa aeroespacial Airvantis.

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