SÃO PAULO, SP (UOL/JORNAL DA TARDE) – As 31 candidatas do Miss Universe Brasil 2026 estão de volta a São Paulo após dias intensos de confinamento no Morro dos Anjos Hotel Resort, em Bandeirantes (PR), onde fizeram etapas preliminares que decidirão suas classificações. Com oito mães no palco, a final será neste sábado (25) e marca o retorno do concurso à TV aberta com transmissão na Record.
“A falta da TV nesses sete anos, claro, provocou o afastamento das pessoas, mas a paixão não. Não tenho dúvida que a paixão [continua] pela mulher brasileira, pelo concurso, ainda mais com todo este novo formato que nós estamos trazendo: temos mães, mulheres sem limite de idade, muito mais empoderadas, fortes e com histórias incríveis”, afirma Rodrigo Ferro, presidente do Miss Universe Brasil em entrevista à reportagem.
DA ERA BAND ATÉ A RECORD
A transmissão na Record ocorre após um hiato de sete anos do concurso sem exibição na TV aberta brasileira. A Band transmitiu o certame de 2003 a 2019, e também era responsável por sua produção a partir de 2012 — depois de 2015, em conjunto com a Polishop. Contudo, a parceria acabou em 2019 e, consequentemente, as exibições.
Para Rodrigo Ferro, que comprou a franquia do Miss Universo no Brasil ainda em 2025, a ideia de aquisição não veio de uma vontade, mas sim, de oportunidade: “Eu vi aqui um produto que estava, de certa forma, desamparado de gestão profissional”.
“Quando se consegue projetar algo e executar, pode-se tornar, sim, um grande negócio valorizando a mulher brasileira e o sonho de cada uma dessas candidatas. Os valores são altos [para fazer isso]”, conta, sem revelar cifras da aquisição e valores para levar a transmissão nacional à TV.
Em 2025, a Record já tinha transmitido o Miss Universo após quatro anos sem o concurso internacional ser exibido por um canal brasileiro. A última vez havia sido com a edição de 2020, realizada em maio de 2021, onde a gaúcha Julia Gama foi vice-Miss Universo, no canal pago TNT. Na TV aberta, foi em 2019, na Band, com a mineira Julia Horta sendo semifinalista.
Especialistas dizem que trazer a final de um concurso de beleza para a TV aberta em uma grande emissora tem um enorme peso estratégico. Ao fazer isso, a organização estaria olhando além de ser apenas uma exibição de entretenimento.
“Estamos falando de alcance de massa e democratização, retomada da relevância cultural, já que durante décadas o Miss Brasil foi um evento de grande visibilidade popular, mobilizando famílias inteiras em frente a TV. Também falamos de valorização comercial, já que para as marcas patrocinadoras a vitrine da TV aberta oferece um retorno de imagem que irá atrair investimentos que fortalecem a estrutura do concurso, tornando-o mais profissional”, explica Lucas Gonçalves, jornalista que já trabalhou na execução do Miss Universo na América Latina.
REPRESENTATIVIDADE AMPLIADA E RELEVÂNCIA
O retorno do concurso para a TV pode significar uma apresentação da transformação que o Miss Universo teve nos últimos anos e que parte do público não acompanhou. Após a permissão de mulheres trans em 2012, ainda sob a gestão de Donald Trump como dono do Miss Universo, uma outra guinada ocorreu em 2023 quando mães, casadas e divorciadas puderam se inscrever. No ano seguinte, caiu o limite de idade -era de 28 anos.
Parte das mudanças veio para sinalizar que os concursos atualmente vão além da aparência e buscam mulheres que sejam capazes de representar causas e inspirar outras pessoas: “Os concursos evoluíram e abriram espaços para diversos perfis, um exemplo é a participação de mulheres acima de 30 anos e de mães”, ressalta Cinthia Santos, enfermeira e uma das administradoras do perfil Voz de Miss, dedicado na cobertura de concursos de miss.
Provar que os concursos seguem relevantes exige um trabalho mental e visual a ser seguido. Há quem aposte que o caminho é mostrar que o foco mudou radicalmente: “Eles deixaram de ser apenas desfiles de aparência para se tornarem plataformas de voz e liderança feminina. Hoje, a miss trabalha muito mais como uma porta-voz de causas sociais, embaixadora cultural e comunicadora”, explica Gonçalves.
Apesar disso, ainda há muito a ser feito, como o avanço na representatividade racial. Apenas quatro vezes misses negras foram eleitas em 72 anos: 1986 (Deise Nunes), 2013 (Jakelyne Oliveira), 2016 (Raissa Santana) e 2017 (Monalysa Alcântara). A eleição de Jakelyne, que vai ser jurada da final do Miss Brasil 2026, sequer foi noticiada como quebrando o jejum de negras -ela disse em reality que sempre se considerou negra.
“Historicamente, tivemos poucas mulheres negras ocupando o título de Miss Brasil, e essa é uma realidade que precisa ser refletida e transformada”, lembra Lucas Sigarini, social media e dono da página Road To Miss USA
AS MÃES
Neste ano, nove mães se classificaram para a etapa nacional em um universo de 33 candidatas: Ana de Sá Carvalho (DF), 26, tem um menino de 2 anos e meio; Liara Marmet (MT), 28, tem um filho de 4 anos; Tatiana Gonçalves (Triângulo Mineiro/MG), 28, tem uma filha de 5; Karina Azevedo (TO), 37, um menino de 8; e Lauriane Pires (MS), 33, uma garota de 11.
Completaram o time de mães classificadas: Patrícia Marchi (Vale do Paraíba/SP), 38, tem uma filha de 21 anos ; Tarcia Ciarlini (AM), 33, tem um filho de 17; Andressa Jamylle (AC), 38, tem duas meninas de 6 e 12 anos; e Nataly Uchôa (AP), 32, tem filhas de 6, 7 e 10 anos. O levantamento é da Folha de S. Paulo.
Chegam à final um total de 31 mulheres, já que houveram duas desistências, uma delas da Miss Distrito Federal, uma das nove mães, por perda de um familiar. Das nove mães, oito são mães-solo, ou seja, não são casadas com os genitores.
“Quando a maioria absoluta das mães classificadas é de mães-solo, o concurso rompe com uma barreira elitista e excludente que historicamente marcou esse universo. Aqui está o porquê de isso aproximar tanto as candidatas da realidade da mulher brasileira: pela quebra do estereótipo da mulher ‘perfeita e inalcançável'”, afirma Lucas Gonçalves, jornalista.
Gonçalves cita que o incentivo à autoestima coletiva e o impacto na percepção do público fazem com que mulheres que nunca se viram representadas -seja pelo biotipo rígido do passado, pela idade ou por terem filhos- passam a enxergar que a beleza e o valor de uma mulher não são anulados pela maternidade ou por não seguirem um molde tradicional de família. “Pelo contrário: a maturidade e a responsabilidade de criar um filho adicionam uma camada de força e resiliência fascinante”, pontua.
“Nossa sociedade teima em acreditar que depois que uma mulher se torna mãe fica limitada a cuidar somente da casa e dos filhos, o que não é verdade. Ainda mais as mães-solo que se desdobram para cuidar e sustentar seus filhos, e muitas ainda sem nenhuma rede de apoio”, aponta Izabela Garcia, biomédica e criadora da página Voz de Miss.
A FINAL
O Miss Brasil tem final marcada para este sábado, dia 25 de julho, no Komplexo Tempo, localizado na Mooca, em São Paulo. Os portões serão abertos às 20h e o concurso tem previsão de início às 22h30.
Há ingressos sendo vendidos pela plataforma Ticketmaster. A meia-entrada da plateia custa a partir de R$ 90 e o camarote open bar R$ 250 a meia. Não há cobrança de taxas.
A vencedora do concurso vai representar o Brasil no Miss Universo 2026, em 24 de novembro, em Porto Rico. É a primeira vez que regiões turísticas são representadas no certame da franquia brasileira do Miss Universo. O chamado para assistir o concurso pela televisão está aberto:
“O Brasil é o país do futebol, mas é também o país de mulheres incríveis e eu acho que nós estamos aqui escrevendo um novo capítulo do concurso Miss Brasil, podendo demonstrar para todo o nosso país cada uma das suas representatividades”, diz Ferro.










