HENRIQUE FARINHA E RODOLFO GOMES
(UOL/JORNAL DA TARDE) – O Santos reconheceu dívida de R$ 90,5 milhões com a NR Sports, empresa responsável pela gestão dos direitos de imagem de Neymar. O valor consta no quinto aditamento do contrato entre as partes, assinado em 6 de abril de 2026 e obtido pela reportagem.
O mesmo documento mantém o CT Meninos da Vila, principal centro de treinamento das categorias de base do clube, como garantia e retira cláusulas que previam pagamento imediato caso o atual presidente, Marcelo Teixeira, não fosse reeleito em dezembro ou se o clube fosse transformado em SAF (Sociedade Anônima do Futebol).
O contrato é assinado pelo presidente do Santos, Marcelo Teixeira, pelo vice-presidente Fernando Bonavides e por Altamiro Lopes Bezerra, diretor financeiro da NR Sports.
Procurada pela reportagem, a NR Sports informou que não irá se manifestar sobre o contrato. O Santos também foi questionado sobre o teor do aditamento, o valor exato transferido à NR Sports, o novo cronograma de pagamentos e a eventual submissão da garantia ao Conselho Deliberativo. O clube preferiu não se manifestar alegando respeitar o compromisso de confidencialidade previsto no contrato.
R$ 26 MILHÕES JÁ ESTAVAM VENCIDOS
Dos R$ 90,5 milhões reconhecidos pelo Santos no novo acordo, R$ 26 milhões correspondem a obrigações já vencidas. Os outros R$ 64,5 milhões aparecem como saldo ainda a vencer.
O aditamento também determinou que os 2 milhões de euros que o clube tinha a receber do Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, pela venda do atacante Luca Meirelles fossem integralmente destinados à amortização do passivo vencido.
Pelo contrato, o Santos teria 24 horas, contadas a partir do recebimento dos recursos, para repassar o valor à NR Sports. Em caso de atraso, o contrato prevê multa de 4% do valor total da dívida, e não somente dos 2 milhões de euros.
Na última quarta-feira (22), o Santos avisou que fez o pagamento à empresa de Neymar, mas não informou a data exata da transferência. O clube mencionou um valor de aproximadamente R$ 11 milhões.
A conversão de 2 milhões de euros pela cotação atual corresponde a cerca de R$ 11,6 milhões. O montante efetivamente transferido, entretanto, pode variar de acordo com a taxa de câmbio utilizada na liquidação da operação.
SALDO CAIRIA PARA APROXIMADAMENTE R$ 79,9 MILHÕES
O pagamento amortiza parte dos R$ 26 milhões que já estavam vencidos. Considerando uma transferência de aproximadamente R$ 11,6 milhões, restariam cerca de R$ 14,4 milhões em valores vencidos, além dos R$ 64,5 milhões a vencer.
Nesse cenário, o saldo devedor cairia para aproximadamente R$ 79,9 milhões.
O quinto aditamento estabelece que o valor remanescente será pago em parcelas mensais, iguais e sucessivas, de R$ 1 milhão, com início em janeiro de 2027.
O contrato determina ainda que o pagamento será realizado, excepcionalmente, sem correção monetária, juros ou multa.
O documento não informa expressamente o número total de parcelas nem estabelece uma data para a quitação integral da dívida. Dessa forma, o cronograma completo de pagamento permanece indefinido.
Como as parcelas começam apenas em janeiro do próximo ano, a maior parte da obrigação financeira será transferida para a gestão que assumir o Santos depois das eleições presidenciais de 2026.
CT MENINOS DA VILA CONTINUA PREVISTO COMO GARANTIA
O novo contrato preserva a possibilidade de utilização do CT Meninos da Vila como garantia real da dívida.
O documento determina que a hipoteca, a alienação fiduciária (quando o imóvel fica temporariamente em nome do credor) ou qualquer outra restrição sobre o imóvel só poderá ser feita com autorização prévia do Conselho Deliberativo.
Segundo o Estatuto Social do Santos, a reunião precisaria contar com a presença mínima de metade dos integrantes do Conselho e a aprovação de pelo menos dois terços dos membros presentes.
O Santos não informou se essa reunião do Conselho foi feita ou se há previsão de que ela aconteça.
CLÁUSULAS SOBRE ELEIÇÃO E SAF FORAM RETIRADAS
A dívida já havia sido repactuada em 30 de dezembro de 2025. Naquele acordo, também obtido anteriormente pela reportagem, o Santos já reconhecia o débito total de R$ 90,5 milhões.
Os primeiros R$ 26 milhões seriam pagos em cinco parcelas mensais de R$ 5,2 milhões, com vencimentos previstos entre janeiro e maio de 2026. Os R$ 64,5 milhões restantes seriam quitados em 43 parcelas mensais de R$ 1,5 milhão, acrescidas de correção monetária pela variação do IPCA/FGV. Caso as cinco primeiras parcelas fossem pagas dentro do cronograma, o último vencimento ocorreria em 30 de dezembro de 2029.
Além das condições financeiras, o acordo anterior continha hipóteses específicas de vencimento antecipado de todo o saldo devedor. Uma delas era a eventual não-reeleição de Marcelo Teixeira à presidência do Santos nas eleições previstas para dezembro de 2026. O documento também mencionava como hipóteses de vencimento antecipado a transformação do clube em SAF.
Essa repactuação também oferecia o CT Meninos da Vila como garantia. Caso o Santos se recusasse a formalizar o instrumento específico depois de notificado, havia previsão de uma multa diária equivalente a 1% do saldo devedor, cobrada até a constituição da garantia ou a substituição por outra.
O quinto aditamento, assinado pouco mais de três meses depois, excluiu as cláusulas que relacionavam o vencimento antecipado da dívida à eleição presidencial e à transformação do Santos em SAF. Foi igualmente retirado o dispositivo anterior que previa a multa diária de 1% caso o clube não formalizasse a garantia sobre o CT.











