SÃO PAULO, SP (JORNAL DA TARDE) – Apesar de Donald Trump ter suspendido no fim de semana os ataques pontuais ao Irã, após ter sido advertido pela cúpula militar dos Estados Unidos de que a campanha não estava tendo efeito, o governo da teocracia rejeitou nesta segunda-feira (27) reabrir negociações de paz.
Já o presidente americano disse ao site Axios que “está em conversas muito profundas com o Irã” e que pode tomar “ação militar forte” se não houver avanços. Ele já afirmou isso antes, inclusive na semana passada. “Ou vai rapidamente, ou não vai”, completou. Mais tarde, citou “conversas muito amigáveis” com o rival.
O porta-voz diplomático do Irã, Esmail Baghaer, também afirmou que seu país irá cessar os ataques retaliatórios contra no Golfo Pérsico enquanto Trump fizer o mesmo. Ainda assim, grupos regionais ligados a Teerã fizeram lançamentos pontuais de drones contra aliados americanos na região, em um aparente teste de estresse.
A campanha americana havia começado após o republicano declarar nulo no dia 8 o cessar-fogo de 60 dias que havia sido assinado entre os rivais em 17 de junho. O acordo ratificava o congelamento da guerra na região, cuja fase mais aguda durou cinco semanas a partir do primeiro ataque dos EUA e de Israel, em 28 de fevereiro.
Os EUA impuseram um bloqueio aos portos iranianos e Teerã disse ter fechado novamente o estreito de Hormuz, via por onde 20% do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo passavam antes da guerra.
A nova pausa nos combates, iniciada na noite de sexta (24), acalmou um pouco os mercados, fazendo o preço do barril do tipo Brent cair para pouco menos de US$ 90, após ter ultrapassado os US$ 100 na semana passada.
Segundo múltiplos relatos na imprensa americana ao longo do fim de semana, a pausa decorreu de um alerta de Dan Caine, o principal chefe militar dos EUA.
Segundo o general, já não havia mais alvos para os bombardeios pontuais dos últimos dias, e havia risco de exaustão de defesa antiaérea na região.
Nesta segunda, ao jornal Washington Post, Trump previsivelmente negou o problema: “Temos muito mais munição do que precisamos”.
A campanha retaliatória do Irã foi particularmente punitiva, atingindo bases americanas na Jordânia, Kuwait e Bahrein, matando oficialmente quatro militares -os relatos de danos são muito censurados, mas imagens sugerem que aeronaves e radares foram destruídos.
Ao rejeitar inicialmente e em público conversas, a teocracia busca estabelecer uma posição de força e cantar uma vitória diplomática sobre os americanos, dado que resistiu à campanha de ataques.
Além disso, Teerã viu a renovada disputa entre seus aliados houthis do Iêmen e a Arábia Saudita jogar ao seu favor, com o perigo de disrupção na exportação de petróleo pelo mar Vermelho. Ainda que os rebeldes tenham agenda própria, a ameaça de ver os estreitos dos dois lados da península Arábica fechados elevou a pressão sobre Trump.
Nesta segunda, partiu dos houhtis um dos ataques pontuais contra parceiros dos EUA, com o lançamento de drones contra instalações petrolíferas do país. No Iraque, outros aviões-robôs foram disparados contra bases americanas no norte do país, e na Jordânia drones não identificados foram abatidos. Não houve danos relatados.
No entanto, há nuances no movimento de Teerã. O regime não buscou envolver Israel na atual fase do conflito, e apenas sinalizou escalada com ataques contra infraestrutura civil no Golfo, sem usar força total.
Os iranianos jogaram uma partida de paciência com os EUA, retaliando de forma pontual. Não interessa a eles a reabertura de um conflito amplo, dada a degradação de boa parte de suas forças.
Por outro lado, isso nem tampouco interessa a Trump, que também insinuou escalada ao atacar pontes iranianas. A guerra é impopular nos EUA, e o republicano enfrenta eleições legislativas em novembro sob risco de perder o controle das duas Casas do Congresso.
Enquanto as declarações são feitas de lado a lado, ainda há pontas soltas no Oriente Médio. O Irã diz que ainda controla Hormuz e que, nesta segunda, mandou seis navios que tentavam deixar a região sem sua autorização darem meia-volta.
Com isso, tenta asseverar seu objetivo estratégico de exercer domínio sobre a região e cobrar pedágio pelo trânsito de navios.
A campanha ora suspensa por Trump começou porque Teerã havia disparado contra petroleiros que haviam cruzado por fora da rota que a teocracia havia estabelecido. Depois disso, estabeleceu um bloqueio que já desviou 17 navios, abordou 2 e atingiu com tiros outros 2. Nesta segunda, Teerã prometeu reagir ao embargo.
A crise será discutida pelo americano com seu aliado Binyamin Netanyahu em um encontro na Casa Branca nesta terça (28). O premiê israelense também é pressionado pelo calendário eleitoral: enfrenta eleições em outubro nas quais precisa apresentar algum resultado de suas guerras na região.
Falando a repórteres no avião presidencial, Trump voltou a dizer nesta segunda que Israel depende dos EUA para existir. “Sinceramente, estamos sendo muito legais com vários países que não sobreviveriam nós. E você sabe quem não sobreviveria sem nós? Israel. Bibi [apelido de Netanyahu] está vindo, ele te conta.”
Em um desenvolvimento paralelo, o Irã ameaçou nesta segunda a Ucrânia após um drone de Kiev atingir um navio da teocracia que deixava um porto russo no mar Cáspio. O incidente, no sábado (25), deixou um morto e um ferido.










