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El Niño é um dos causadores do vendaval, mas não o único fator, dizem meteorologistas

Alisson Sakamoto by Alisson Sakamoto
julho 30, 2026
in BRASIL
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El Niño é um dos causadores do vendaval, mas não o único fator, dizem meteorologistas

SÃO PAULO, SP (JORNAL DA TARDE) – Uma combinação de fenômenos meteorológicos potencializada pelo El Niño deu origem aos eventos climáticos extremos que atingiram o Sul e o Sudeste nesta semana. Foi uma soma de fatores, segundo especialistas: a atuação de uma frente fria, áreas de baixa pressão, um corredor de umidade e um forte contraste de temperatura provocaram chuva extrema no Rio Grande do Sul e vendavais que deixaram mortos em São Paulo e no Rio de Janeiro, segundo meteorologistas.

O El Niño entrou em atuação neste ano, mas meteorologistas ouvidos pela Folha afirmam que atribuir os temporais exclusivamente a ele seria uma simplificação.

O aquecimento das águas do Pacífico ajuda a criar um ambiente mais quente e úmido, aumentando a energia disponível na atmosfera e favorecendo a ocorrência de eventos extremos, mas a intensidade de cada episódio depende da atuação simultânea de diferentes sistemas meteorológicos.

“É muito errado usar o El Niño para explicar um evento isolado. Ele cria um cenário mais favorável, mas uma chuva extrema ou um vendaval dependem da combinação de vários fatores atmosféricos”, afirma o meteorologista e consultor climático Francisco de Assis.

Assis explica que, no episódio desta semana, a frente fria avançou sobre uma atmosfera abastecida por um intenso transporte de umidade vindo da Amazônia. Ao mesmo tempo, um cavado -área alongada de baixa pressão- reforçou a instabilidade, enquanto o encontro entre massas de ar quente e frio criou um contraste de temperatura suficiente para intensificar tempestades.

A frente praticamente estacionou sobre parte do Rio Grande do Sul. Alimentadas continuamente pelo corredor de umidade, as tempestades se formaram sucessivamente sobre as mesmas regiões durante vários dias, concentrando em poucas horas volumes de chuva equivalentes a um mês inteiro.

“O aspecto mais marcante foi justamente a persistência. A frente permaneceu praticamente estacionária, associada ao cavado e ao transporte contínuo de umidade pelo Jato de Baixos Níveis [corrente rápida de ventos em baixas altitudes], favorecendo a formação sucessiva de tempestades sobre as mesmas áreas”, afirma a meteorologista Andrea Ramos.

Segundo a especialista, a gravidade das enchentes não foi determinada apenas pelo volume de chuva. O relevo da Serra e das bacias hidrográficas acelerou o escoamento da água para rios e arroios, enquanto o solo já saturado pelas precipitações anteriores reduziu a infiltração e fez com que a água chegasse mais rapidamente aos cursos d’água.

“A chuva é o fenômeno meteorológico; a enchente é a resposta da bacia. Quando há intensidade, persistência e repetição das tempestades sobre as cabeceiras, vários afluentes respondem ao mesmo tempo e os rios sobem muito rapidamente”, explica.

Quando o sistema avançou para o Sudeste, os efeitos mudaram. Em vez dos maiores acumulados de chuva, predominaram ventos extremamente fortes. Em São Paulo, rajadas chegaram a 125 km/h, derrubando árvores e provocando mortes.

Em escala atmosférica, os episódios tiveram a mesma origem. De acordo com Andrea Ramos, a frente fria avançou acompanhada por um amplo campo de ventos associado ao contraste de pressão. No interior, tempestades transportaram para a superfície ventos muito fortes presentes em níveis mais altos da atmosfera.

No litoral, a interação entre o relevo da Serra do Mar e a circulação atmosférica ajudou a intensificar as rajadas em alguns pontos.

VENDAVAL ERA PREVISTO

Apesar da magnitude dos impactos, os meteorologistas afirmam que o cenário de risco vinha sendo apontado pelos modelos numéricos dias antes. A principal limitação da meteorologia continua sendo indicar exatamente onde ocorrerão os fenômenos mais extremos.

“Os modelos conseguem prever que haverá chuva extrema em determinada região, mas uma tempestade individual pode ter poucos quilômetros de extensão e mudar rapidamente de posição. Pequenas diferenças na umidade, no vento ou no aquecimento da superfície podem deslocar o maior acumulado de um município para outro”, afirma Andrea Ramos.

Conforme Francisco de Assis, os principais modelos internacionais indicavam chuva intensa com vários dias de antecedência. “Quando o modelo prevê entre 80 e 100 milímetros e chove 120 ou 150, ele continua representando corretamente um evento extremo. O problema seria prever 20 milímetros e chover 150”, afirma.

Para o meteorologista Willian Bini, da Metos Brasil, a previsão do tempo enfrenta um desafio adicional porque os eventos extremos estão se tornando mais intensos, frequentes e imprevisíveis em um planeta mais quente.

“As mudanças climáticas deixaram a atmosfera com mais energia. Os eventos ficam mais dinâmicos e explosivos, o que aumenta a dificuldade de previsão. Hoje, além de mais intensos e frequentes, eles também estão mais imprevisíveis”, diz. Bini ressalta que os modelos meteorológicos evoluíram significativamente nas últimas décadas, mas defende maior investimento em radares, estações meteorológicas e redes de observação.

Segundo ele, a baixa densidade de equipamentos em diversas regiões do país limita a coleta de dados e dificulta tanto o monitoramento em tempo real quanto o desenvolvimento de ferramentas baseadas em inteligência artificial capazes de aprimorar a previsão de fenômenos severos.

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