(JORNAL DA TARDE) – Após assembleia na noite desta segunda-feira (3), os ferroviários das linhas 11-coral, 12-safira e 13-jade de São Paulo confirmaram greve por tempo indeterminado a partir da 0h desta terça (4), em protesto contra as falhas apresentadas pela Trivia Trens após ela assumir a concessão das linhas que eram da CPTM (companhia estadual).
A votação ocorreu na sede do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias da Zona Central do Brasil (STEFZCB), no Brás, região central da cidade.
Horas antes, no entanto, a diretoria do sindicato foi chamada ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), para conversar com Nerylson Lima, secretário-chefe da Casa Civil, sobre a possível paralisação. No entanto, não houve acordo e a greve foi oficializada.
Em nota conjunta, a CPTM e o governo estadual lamentaram a decisão do sindicato, “mesmo após a apresentação de compromissos concretos e da disposição expressa da gestão estadual para avançar nas negociações”.
“Na reunião realizada nesta segunda-feira (3), entre representantes do governo e do sindicato, o Estado reiterou o compromisso com a preservação dos postos de trabalho e com a análise de projetos de lei de interesse da categoria, como a absorção dos empregados por outros órgãos públicos estaduais, a discussão sobre incorporação da Estrada de Ferro Campos do Jordão pela CPTM, e a inclusão dos trabalhadores no Instituto de Iamspe (Assistência Médica ao Servidor Público Estadual), sistema de assistência à saúde destinado aos servidores públicos do Estado”, diz a nota.
A CPTM também disse ter recorrido ao TRT (Tribunal Regional do Trabalho), “que determinou a operação de 80% do efetivo nos horários de pico e de 60% nos demais períodos. Em caso de descumprimento, o TRT fixou uma multa diária de R$ 400 mil ao sindicato”.
A assembleia dos ferroviários havia sido marcada, com indicativo de greve, após o episódio em que um vagão da linha 12-safira ficou destruído por um incêndio no dia 23 de julho. A falha elétrica paralisou as três linhas sob concessão da Trivia Trens.
O problema ocorreu apenas três dias depois que a Trivia começou a operar os ramais.
O leilão que definiu a concessão ocorreu em março de 2025 e foi vencido pelo grupo Comporte Participações, criado por Nenê Constantino, da família fundadora da companhia aérea Gol.
A Trivia é a holding do grupo empresarial voltada ao setor de transporte, principalmente rodoviário. Os investimentos previstos nas linhas 11, 12 e 13 são de R$ 14,3 bilhões. A concessão prevê a construção de estações e extensões das linhas. Pelo contrato, a Trivia também ficará responsável pela manutenção das 92 composições -outros 15 trens serão incorporados à frota de forma gradual.
Em maio, a Trivia Trens disse ter contratado 62% do valor de investimentos para a concessão. Isso representa R$ 8,8 bilhões do total de R$ 14,3 bilhões previstos para o período de 25 anos da concessão.
Devido à repercussão negativa da falha, o governo Tarcísio decidiu retomar o controle das linhas 11-coral, 12-safira e 13-jade por 90 dias, em conjunto com a concessionária. E cinco dias depois, o Ministério Público de São Paulo abriu um inquérito civil para apurar as falhas.
Na portaria, a promotora Patrícia de Carvalho Leitão, da 4ª Promotoria de Justiça do Consumidor da Capital, cita as falhas, que fizeram o governo Tarcísio de Freitas devolver a gestão das linhas por ao menos 90 dias para a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, que é estatal) -a decisão foi tomada dois dias depois de os ramais começarem a ser administrados pela concessionária.
A promotora pediu que a concessionária, a Artesp (Agência de Trasnsportes do Estado de São Paulo) e a CPTM fossem notificadas.
“Segundo consta, desde a assunção da operação pela concessionária Trivia Trens S.A., em 21/07/2026, foram registradas mais de sete falhas operacionais graves em apenas três dias de gestão, com risco ao bem-estar, à integridade física e psicológica dos usuários”, diz parte do trecho da portaria.
Em nota, a Trivia Trens afirmou estar ciente da instauração do inquérito civil e que prestará todos os esclarecimentos solicitados, nos prazos estabelecidos.
“A concessionária reitera seu compromisso com a transparência, a cooperação com as autoridades e a conformidade regulatória, permanecendo à disposição para contribuir com a apuração dos fatos. Paralelamente, segue contribuindo com as investigações técnicas sobre a ocorrência junto aos órgãos competentes”, disse na ocasião.
No dia da falha, no entanto, o governador afirmou que poderá romper a concessão se a Trivia Trens não cumprir o contrato.
“Acho que a empresa precisa se preparar melhor para assumir esse encargo, esse ônus. É inaceitável o que aconteceu no dia de hoje. A gente não vai tolerar, porque toda vez que você raciocina em conceder o serviço público, você faz isso na intenção de melhorar o serviço, nunca para desassistir o cidadão”, afirmou Tarcísio.









