BOGOTÁ, COLÔMBIA (JORNAL DA TARDE) – “Por que você arruinaria sua carreira? Se você não quer que eu seja amigável, então não preciso ser”, teria dito um funcionário da OpenAI a um matemático da NYU (Universidade de Nova York).
O pesquisador questionava se o trabalho que fazia usando o ChatGPT tinha sido usado no que a empresa anunciaria como a resolução de um dos Problemas do Milênio da matemática.
Na terça-feira (8), a OpenAI veio a público afirmar que sua IA teria conseguido resolver um dos chamados Problemas do Milênio, uma série de questões matemáticas ainda sem resposta. Com recursos computacionais vultuosos, a IA teria resolvido o problema de Navier-Stokes, que, em linhas gerais, descreve o comportamento de fluidos viscosos.
No mesmo dia, uma postagem de Tristan Buckmaster, professor de matemática da NYU, apontava avanços importantes no mesmo problema -e em outros- e narrava contatos recentes com membros da OpenAI, entre eles o que culminou nas frases mencionadas acima.
Buckmaster já se debruçava há algum tempo sobre a questão de Navier-Stokes -inclusive com uma premiação relacionada ao tema. Com base nas ideias dos pesquisadores Diego Córdoba e Luis Martínez-Zoroa, o matemático trabalhava juntamente com Levent Alpöge para resolver o problema, com uso dos modelos de IA Claude, da Anthropic, e Codex, da OpenAI.
Vale mencionar que Alpöge é funcionário da Anthropic, rival comercial da OpenAI, mas o pesquisador da NYU diz que o projeto é uma colaboração pessoal entre os dois, sem envolvimento oficial de seus empregadores.
“Durante a maior parte do ano passado, o progresso foi lento. Isso mudou há cerca de um mês, quando tivemos avanços concretos”, escreveu Buckmaster em um documento compartilhado em redes sociais.
Segundo o matemático, devido a participação de Alpöge no projeto, circulavam rumores de que a Anthropic estaria para resolver um dos Problemas do Milênio. A conversa teria chegado aos ouvidos da OpenAI.
Buscando esclarecer os boatos e informar que a iniciativa não tinha conexões empresariais, Buckmaster contatou um pesquisador proeminente da OpenAI na última quinta-feira (3).
“Se você estiver disposto a fornecer algum detalhe, isso seria útil para evitar que haja concorrência aqui. De modo geral, sempre ficamos muito entusiasmados quando matemáticos avançam com nossos modelos. Além disso, se houver qualquer necessidade de recursos computacionais por parte da OpenAI, teremos prazer em fornecê-los”, respondeu, no mesmo dia, o membro da companhia.
Três dias depois, a pedido do funcionário da empresa, ele, o matemático da NYU e Sebastien Bubeck, também membro da OpenAI, se encontraram. Foi então que Buckmaster ouviu que a OpenAI teria conseguido avançar no problema de Navier-Stokes.
A abordagem usada para o suposto avanço, porém, chamou atenção do cientista da NYU. “Quase ninguém mais que eu conheça estava trabalhando nisso. Não é o tipo de abordagem a que se chega em poucos dias simplesmente apresentando o enunciado do problema a um modelo [de linguagem, uma IA]”, escreveu o matemático.
Em seguida, teria sido relatado a Buckmaster que toda uma equipe da OpenAI estaria envolvida na tentativa de resolução com uso do modelo Codex -já ao seu colega Alpöge, foi dito que houve pouca intervenção humana.
O matemático da NYU então questionou quando as primeiras tentativas de resolução foram iniciadas -o primeiro prompt em busca da solução. Ouviu, então, que tudo havia começado há poucos dias, depois dos rumores sobre seu trabalho chegarem à OpenAI.
“Perguntei se o modelo havia sido treinado com base em nossas sessões no Codex, ou se tinham acesso a elas -nas quais inserimos todos os rascunhos do projeto. Disseram-me que o modelo não consultava dados dos usuários. Voltei a perguntar sobre o treinamento, mas não obtive resposta”, escreveu o matemático da NYU.
Em uma postagem na rede X, porém, a OpenAI diz que os dados poderiam, sim, ter sido usados pelos sistemas da empresa.
“Embora seja improvável, não podemos descartar a possibilidade de que dados anonimizados, derivados do uso que essas pessoas fizeram de nossos produtos, tenham contribuído para aprimorar nossos modelos”, diz a empresa. Na mesma postagem, a companhia parabeniza Alpöge e Buckmaster pelo trabalho matemático deles.
Segundo Buckmaster, durante o encontro com Bubeck e outro pesquisador da OpenAI, foram apresentadas a ele duas propostas. Em uma delas, Buckmaster apresentaria o resultado de outro problema no qual trabalhava e a OpenAI publicaria, em seguida, a resolução de Navier-Stokes. Em outra, o matemático poderia escrever um artigo sobre Navier-Stokes, “reconhecendo que um modelo interno da OpenAI havia resolvido o problema”.
Bubeck teria repetido que queria que Alpöge, parceiro de Buckmaster, fosse excluído da autoria, por trabalhar na Anthropic.
As propostas foram recusadas e o pesquisador da NYU teria dito que, caso a OpenAI publicasse os resultados tal como foi proposto, ele iria a público relatar a situação.
Foi nesse momento que ouviu: “Por que você arruinaria sua carreira?”
Buckmaster teria respondido que é um acadêmico e questionado por que tornar a questão pública arruinaria sua carreira. “Se você não quer que eu seja amigável, então não preciso ser”, teria sido a resposta.
No fim de sua declaração, Buckmaster diz que não viu a prova de resolução da OpenAI e que não sabe o que o modelo fez ou como fez.
“Não sei se nossos dados foram usados. Não estou acusando ninguém de nada. Estou relatando o que me disseram, quando me disseram e o que me foi proposto. Estou fazendo isso porque a alternativa seria permitir que uma série de anúncios transmita algo que sei não ser verdade”, afirmou o matemático da NYU. “Eu preferiria estar falando sobre matemática, sobre as ideias de Luis e Diego e sobre o que tudo isso significa para o restante de nós.”
OUTRO LADO
Em uma postagem em redes sociais, Bubeck, da OpenAI, diz que não estava ententendo por que algo a ser celebrado estaria se transformando em uma “disputa tão mesquinha”. “Foi então que eu disse não entender por que alguém colocaria a própria carreira em risco (por causa de acusações infundadas)”, escreveu o membro da OpenAI.
Sobre a potencial exclusão de Alpöge, o membro da OpenAI diz que nunca fez esse pedido. Afirmou que uma das possibilidades apresentadas era o matemático da NYU ser colocado como autor principal de uma versão revisada da prova de Navier-Stokes da OpenAI.
“Foi nesse contexto que eu disse que ‘seria mais simples se Levent não fosse funcionário da Anthropic’, pois considerei que seria inadequado um funcionário da Anthropic assinar como autor um trabalho da OpenAI”, afirmou Bubeck.
Bubeck diz que Buckmaster o teria ameaçado de ir à imprensa com o que, segundo o funcionário da OpenAI, seria “uma enxurrada de acusações infundadas”.
“Rebati todas as acusações, mas ele [Buckmaster] respondeu: ‘Não há nada que você possa fazer, eu simplesmente não confio em você'”, disse, via redes sociais, o membro da OpenAI.










