SÃO PAULO, SP (JORNAL DA TARDE) – O dólar sobe nesta segunda-feira (14), com o forte avanço do petróleo no exterior aumentando a cautela entre investidores e prejudicando ativos de mercados emergentes.
Por volta das 13h10, a moeda americana avançava 0,57%, a R$ 5,152, em linha com o movimento no exterior. Lá fora, o índice DXY, que mede o desempenho do dólar ante seis outras divisas fortes, subia 0,38%.
No mesmo horário, a Bolsa recuava 0,83%, a 185.652 pontos, com os papéis de petrolíferas no terreno positivo, na contramão da maior parte das ações.
A cautela no pregão, segundo analistas, tem origem no exterior. Ataques de drones atingiram um oleoduto na Arábia Saudita e levaram à suspensão temporária das operações da instalação.
O episódio se soma ao avanço dos houthis, grupo do Iêmen aliado ao Irã, que confirmou o lançamento de “dezenas de mísseis balísticos e drones” contra alvos militares no sul da Arábia Saudita. Na semana passada, o grupo havia anunciado o controle da cidade de Mocha, considerada estratégica para o escoamento de petróleo saudita pelo estreito de Bab el-Mandeb.
A escalada aumenta os riscos para as exportações da Arábia Saudita pelo Mar Vermelho, após a obstrução do estreito de Hormuz. Antes do conflito, Hormuz era responsável pela circulação de cerca de 20% da produção mundial de petróleo e gás.
A tensão também levou os Estados do Golfo a adiar uma reunião sobre a gestão do estreito de Hormuz. O encontro seria o primeiro, em quase dois anos, entre os principais diplomatas dos seis integrantes do Conselho de Cooperação do Golfo -Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar, Omã e Bahrein- e o chanceler iraniano.
Durante o pregão desta segunda-feira, o petróleo Brent, referência mundial da commodity, avançava 4,90%, a US$ 109,74, na máxima do dia.
Para Bruno Cordeiro, analista de inteligência de mercados da StoneX, investidores demonstram preocupação com uma redução das exportações sauditas de petróleo pelo Mar Vermelho.
“Devemos observar, a partir da próxima semana, uma redução significativa dos volumes de petróleo saudita escoados pela via marítima. Tivemos o adiamento das conversas entre Irã e países do Golfo nesta segunda, muito por conta dos ataques à infraestrutura saudita. As expectativas são de que haja uma extensão do menor nível de exportação de produtos pelo Golfo Pérsico”, afirma.
O comportamento difere do observado nas últimas semanas, quando a alta do petróleo impulsionou os ativos domésticos. O avanço da commodity melhora as perspectivas de receita e rentabilidade das empresas produtoras, além de favorecer o fluxo estrangeiro para as ações brasileiras. Nesta segunda, contudo, as petroleiras avançam, em grande medida, isoladamente, sem conseguir impulsionar a Bolsa como um todo.
Segundo Felipe Cima, analista de renda variável da Manchester Investimentos, o avanço do petróleo alimenta temores inflacionários e aumenta a cautela dos investidores. “É uma questão de remédio e veneno. O petróleo mais alto faz a Petrobras, que representa boa parte do Ibovespa, valorizar. Mas um petróleo muito alto tem impacto sobre a inflação.”
A perspectiva de inflação mais alta aumenta a cautela dos investidores diante da possibilidade de manutenção dos juros em níveis elevados por mais tempo, o que tende a pressionar ativos de risco.
Segundo o Boletim Focus desta segunda-feira, a previsão é de que o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, métrica oficial da inflação) encerre 2026 em 4,90%. O índice ainda está acima do teto da meta de 3%, de 4,5%, considerando a tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.
Para esta semana, a expectativa é de que a escalada do conflito e a pressão sobre os preços do petróleo também sejam consideradas na decisão de política monetária do Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA). O mercado prevê que a instituição eleve a taxa de juros para a faixa de 3,75% a 4%, ante os atuais 3,5% a 3,75%.
No Brasil, a expectativa é de que o Copom (Comitê de Política Monetária) reduza a Selic para 13,75%, ante os atuais 14%.
O cenário político brasileiro também continua no radar dos investidores. Na pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (11), após o fechamento do mercado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apareceu numericamente à frente do senador Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro e no segundo turnos.
Lula tem 39% das intenções de voto no primeiro turno, ante 35% de Flávio. No segundo turno, o petista aparece com 46%, contra 44% do senador.
Na pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira, Flávio aparece numericamente à frente de Lula pela primeira vez, com 42% das intenções de voto no segundo turno, ante 40% do presidente.
O cenário eleitoral também se relaciona à crise do STF (Supremo Tribunal Federal). Mensagens recuperadas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, do Banco Master, indicaram a atuação do ministro Alexandre de Moraes em favor do ex-banqueiro.
A retirada do sigilo da investigação, por decisão do ministro André Mendonça, revelou que, dias antes de ser preso pela PF, Vorcaro perguntou a Moraes se deveria deixar o país.
Em resposta, Moraes pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, a investigação de Mendonça por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade na condução do caso do Banco Master e do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).
Na última semana, Fachin retirou Moraes da relatoria do inquérito das fake news, que estava sob sua condução havia mais de sete anos, e Mendonça da relatoria do procedimento que apura a ligação entre Moraes e Vorcaro.
A interpretação predominante no mercado é de que o desgaste do STF pode favorecer mais a campanha de Flávio Bolsonaro do que a de Lula, uma vez que o senador tem sido historicamente crítico ao Supremo e usa esse discurso para defender o impeachment de ministros da corte.









