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O Tamagotchi voltou — e agora ele te vigia

Alisson Sakamoto by Alisson Sakamoto
setembro 30, 2026
in LIFESTYLE
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Foto: Divulgação/Meta

Muse Charm

Um bichinho virtual, um cordão para pendurar na bolsa e um assistente de inteligência artificial no bolso. À primeira vista, o Muse Charm, novo dispositivo da Meta, parece uma versão moderna do Tamagotchi que fez sucesso nos anos 1990. Só que, por trás do visual nostálgico, a empresa testa algo bem mais ambicioso: uma nova maneira de conversar com a IA.

Apresentado por Mark Zuckerberg durante a Meta Connect, em setembro, o dispositivo tem aproximadamente o tamanho de um relógio de bolso e uma tela OLED sensível ao toque de cerca de 2 polegadas. A proposta é simples: oferecer acesso direto ao Muse, agente de IA da Meta, sem que o usuário precise recorrer a um aplicativo no smartphone.

O projeto foi liderado por Alan Dye, ex-chefe de design de interface da Apple, contratado pela Meta para comandar um novo estúdio criativo dentro do Reality Labs. Segundo os materiais de divulgação, o aparelho levou cerca de nove meses para sair do conceito até chegar ao estágio de produto.

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O codinome interno dá uma pista do conceito: “Clawmagochi”.

O que o Muse Charm faz?

O pequeno dispositivo tem sistema operacional próprio, conexão 5G e pode funcionar sem Wi-Fi. Também conta com câmeras frontal e traseira, microfones, alto-falantes, sensor de impressão digital e entrada USB-C.

Na tela, o Muse aparece como um personagem personalizável. Entre as opções citadas estão uma manga antropomórfica, um labradoodle e até uma torrada usando óculos escuros.

As câmeras também têm uma função importante: permitem que o agente “veja” o ambiente ao redor do usuário.

“Colocamos muita tecnologia nesse pequeno”, disse Zuckerberg durante a apresentação, segundo a Dezeen. O executivo afirmou ainda que, para quem não utiliza os óculos inteligentes da Meta, o Charm seria “de longe a forma mais rápida” de falar com o Muse.

O aparelho também reproduz música e vídeo, mas não substitui um celular para ligações.

O preço ainda não foi definido. A expectativa é que fique na faixa de um smartwatch e chegue ao mercado antes do fim de 2026, inicialmente em pequena escala.

Por que lançar um produto tratado como experimental?

A resposta está menos nas vendas imediatas e mais no aprendizado.

Andrew Bosworth, CTO da Meta, descreveu o produto como “legal”, “divertido”, “estranho” e “diferente”. A ideia, segundo ele, era colocar no mercado ainda em 2026 um produto que não existia.

A própria empresa considera o Charm uma espécie de experimento. A maior parte do uso do Muse deve continuar nos smartphones e nos óculos inteligentes da Meta. O dispositivo de bolso aparece como uma alternativa para entusiastas e primeiros usuários.

Essa estratégia permite que a empresa observe como as pessoas realmente interagem com um agente de IA quando ele deixa de estar preso a uma tela de celular.

E esse pode ser o ponto mais interessante do produto.

Próxima disputa pode ser pela interface

Nos últimos anos, a corrida pela inteligência artificial ficou concentrada nos modelos. Quem responde melhor? Quem escreve melhor? Quem executa mais tarefas?

Com produtos como o Muse Charm, a disputa ganha outra camada: como as pessoas vão acessar esses agentes?

Em vez de abrir um aplicativo, digitar uma pergunta e esperar uma resposta, a proposta é manter o assistente constantemente acessível. Ele pode acompanhar o usuário como um acessório, quase como um objeto pessoal.

O visual do Tamagotchi ajuda nessa estratégia.

O bichinho virtual dos anos 1990 criou uma relação de rotina com seus donos. Era preciso voltar ao aparelho, cuidar do personagem e acompanhar o que acontecia com ele.

Reprodução/Twitter

Tamagotchi famoso os anos de 1990

O Muse Charm adapta essa lógica para a inteligência artificial. O personagem deixa de ser apenas um brinquedo e passa a funcionar como a “cara” de um assistente capaz de realizar tarefas.

Para a tecnologia, a mudança é relevante. A IA deixa de ser apenas uma ferramenta que o usuário procura quando precisa e começa a ocupar um espaço mais próximo de um companheiro digital.

Fracasso de outros gadgets de IA ainda pesa

A Meta, no entanto, não entra em um terreno sem histórico. Em 2024, dispositivos como o Humane AI Pin e o Rabbit R1 chegaram ao mercado prometendo mudar a relação das pessoas com o smartphone. A experiência não correspondeu às expectativas.

O AI Pin enfrentou críticas relacionadas a bateria, velocidade e utilidade e acabou descontinuado depois que a Humane vendeu seus ativos para a HP. O Rabbit R1 também chamou atenção no lançamento, mas teve dificuldade para transformar a curiosidade inicial em uso recorrente.

O Muse Charm tenta seguir por outro caminho. Em vez de prometer substituir o celular, funciona como um complemento.

Além disso, chega acompanhado de um agente que já conquistou uma base de usuários. Segundo o material da Dezeen, o aplicativo do Muse já havia ultrapassado 2,5 milhões de downloads.

O design também faz parte da aposta.

O ‘Tamagotchi’ conversa com a moda

O formato do Muse Charm não parece ter sido escolhido por acaso.

Nos últimos anos, acessórios pendurados em bolsas ganharam espaço, especialmente entre consumidores mais jovens. Chaveiros, personagens, produtos de beleza e outros objetos passaram a funcionar também como elementos de estilo.

A febre dos Labubus ajudou a impulsionar esse comportamento. Ao mesmo tempo, usuários da Geração Z passaram a transformar dispositivos antigos, como Apple Watches, em acessórios para bolsas e chaveiros.

Labubus viraram uma febre mundial e objeto de desejo entre colecionadores, adultos, crianças e celebridade
Divulgação Pop Mart

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O movimento faz parte de uma onda maior de nostalgia tecnológica, que também trouxe de volta câmeras digitais, celulares dobráveis, iPods, CDs e outros objetos que pareciam ter ficado no passado.

O Muse Charm combina as duas tendências: tecnologia como acessório e tecnologia com aparência retrô.

Para Linda Sui, fundadora da Smart Analytics Global, a mistura de inteligência artificial, moda e personalização pode atrair consumidores mais jovens. Mas há uma ressalva: sem funções que outros dispositivos não consigam oferecer com facilidade, o produto pode continuar restrito aos primeiros usuários.

Jitesh Ubrani, diretor da IDC, também vê potencial entre pessoas que não querem usar óculos inteligentes.

Privacidade pode ser o maior desafio

O problema é que colocar câmeras e microfones em um dispositivo que acompanha o usuário o tempo todo também amplia as dúvidas sobre privacidade.

Esse é um ponto especialmente sensível para a Meta, que acumula histórico de disputas relacionadas ao uso de dados e à privacidade de usuários.

O Muse Charm tem duas câmeras, microfones e conexão permanente por 5G. Na prática, isso significa um equipamento capaz de captar informações do ambiente enquanto permanece próximo do corpo do usuário.

A confiança, portanto, pode pesar tanto quanto o design ou os recursos de inteligência artificial.

A questão não é exclusiva da Meta. À medida que agentes de IA ganham acesso a mensagens, compras, compromissos e outras informações pessoais, as empresas precisam convencer o consumidor de que esses dispositivos podem fazer parte da rotina sem transformar conveniência em perda de controle.

Um pequeno dispositivo para uma aposta grande

O Muse Charm pode não se tornar um produto de massa. A própria Meta o apresenta como uma experiência inicial.

Mas o aparelho ajuda a revelar uma mudança na estratégia da empresa: a inteligência artificial pode sair da tela do celular e começar a ocupar objetos que acompanham o usuário durante o dia.

O desafio será transformar o efeito de novidade em hábito.

Por enquanto, o “Tamagotchi” da Meta é menos um brinquedo do que um laboratório de bolso. A empresa testa se as pessoas querem conversar com a inteligência artificial de uma maneira mais natural, constante e pessoal — e se estão dispostas a carregar essa relação no chaveiro.

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