Mario Moreno como Cantinflas
Quando eu era garoto, fui apresentado por meu pai ao personagem Cantinflas, imortalizado pelo ator mexicano Mario Moreno.
Ele sempre me contava animado as cenas de humor que assistia nos filmes desse personagem, exibidos no único cinema de Periana, o povoado andaluz em que meu pai viveu.
Agora, décadas depois, 35 filmes estrelados por Mario Moreno estão à disposição dos assinantes na Netflix.
Personagem
Cantinflas foi o personagem imortalizado pelo ator Mario Moreno, que nasceu na Cidade do México em 1911, com o nome de Fortino Mario Alfonso Moreno Reyes. Morreu na mesma cidade em 1993.
Além de filmes com esse personagem, Moreno participou de outras produções.
Talvez a mais conhecida seja A Volta ao Mundo em 80 dias ( Around the World in 80 Days, 1956), filme dirigido por Michael Anderson e John Farrow, protagonizado por David Niven, no papel de um milionário que aposta que é capaz de dar uma volta ao mundo em 80 dias.
Ele é acompanhado por seu criado Passepartout, papel de Moreno que lhe garantiu o Globo de Ouro de melhor ator.
Crítica
Para fazer um breve balanço da importância de Mario Moreno, entrevistamos o crítico de cinema Humberto Silva, que colabora regularmente no site CinemaEscrito.
Vejamos o que ele tem a nos dizer:
O humor do Cantinflas era ingênuo, quase pueril, destinado a todas idades, de 8 a 80 anos. Você acha que há espaço, nos dias de hoje, para um humor semelhante ao que ele fazia?
Como exercício de especulação, ao indagar se o humor feito por ele teria espaço no Brasil hoje, entendo que sim. Mas é preciso para isso não perder de vista duas coisas importantes.
Quais são?
Cada época, por conta de traços característicos que lhe são próprios, produz essencialmente o humor do tempo vivido.
Nesse sentido, o humor do Cantinflas, com toques de ingenuidade e subliminarmente de crítica social, hoje teria necessariamente feição diferente.
Outra coisa: ao contrário do tempo dele, hoje vivemos uma época de avassaladora volatização dos meios midiáticos.
De YouTube a redes sociais, estamos expostos a uma enxurrada de atrações neste nosso “admirável mundo novo”.
Então seu humor, na dispersividade de nosso tempo, acho que quase com certeza não teria o alcance da época em que ele viveu.
Para completar, Cantinflas se impôs em grande parte em razão de seu enorme carisma.
Caso o humor que fez tivesse espaço hoje, isso exigiria também um humorista com o enorme talento dele.
Como ele, isso eu acho praticamente impossível dada à volatilidade dos dias de hoje.
Cantinflas é um personagem eterno
Quando estava no auge, o personagem de Cantinflas era comparado ao Carlitos de Charles Chaplin. Isso seria válido para os dias de hoje?
Sim, perfeitamente. O que Charles Chaplin teve a favor, e que por razões óbvias faltou a Cantinflas, é o poderio da máquina publicitária hollywoodiana.
Chaplin, com isso, em escala mundial está numa posição que Cantinflas não chegou.
Mas veja, o que está em pauta não é o talento e sim como a visibilidade de um artista pode ser condicionada pela indústria de espetáculo, pelo poder econômico.
Sem essa variável no jogo do espetáculo, para mim são dois artistas cujos talentos estão no mesmo patamar.
Qual a real importância de Mario Moreno para o cinema, seja no México como no mundo?
Cantinflas se notabilizou de forma inconteste em seu país. Ele é um símbolo nacional.
Guardadas as proporções, e sendo contemporâneos, como Carmem Miranda para o Brasil.
Ambos simbolizam uma época, ambos se impuseram como ícones de afirmação de identidade nacional.
Acho importante notar isso em Cantinflas, símbolo de identidade nacional, ao levarmos em conta o alcance em escala global de sua presença.
A projeção internacional dele é inegável. Justamente por isso falamos dele agora, tanto tempo depois de seu auge como humorista.
Mas não subestimemos o fator tempo. Com a passagem do tempo, ele e tantos outros, mesmo estrelas hollywoodianas, acabam esquecidos.
De algum modo, infelizmente, ele, Chaplin ou Carmen Miranda são hoje percebidos como curiosidades de um tempo que já passou.
É possível encontrar ecos do personagem Cantinflas em Didi, criação do comediante brasileiro Renato Aragão?
São formas de humor diferentes. Nesse ponto, para mim, vejo maior similaridade entre Cantinflas e Chaplin ou, para ficar no Brasil, vejo similaridade dele com Mazzaropi.
Ao contrário destes, Renato Aragão, com o Didi, não criou um personagem com o poder de reconhecimento na mesma medida.
Entendo também que, apesar do enorme sucesso nas décadas de 1970 e 80, Didi está longe de ter o carisma de Cantinflas.
O que se pode notar entre ele e Didi é a grande facilidade para atrair as crianças com o humor que fizeram.
Contudo, assim como Chaplin ou mesmo Mazzaropi, o humor em Cantinflas ia além do público infantil.
Aproveitem
Depois de 33 anos da morte de Mario Moreno, esses 35 filmes servirão para que as novas gerações conheçam o humor ingênuo e cativante de Cantinflas. Ficarão disponíveis na Netflix até março de 2027.
Destaque para: Nem Sangue, Nem Areia ( Ni sangre, ni arena, 1941), Os Três Mosqueteiros ( Los tres mosqueteros, 1943), Se Eu Fosse Deputado ( Si yo fuera diputado, 1952), O Bolero de Raquel ( El bolero de Raquel, 1956), O Analfabeto ( El analfabeto, 1961) e O Patrulheiro 777 ( El patrullero 777, 1978).
Também servirão para fazer a alegria de um velhinho de 95 anos que, com eles, recordará sua juventude nos anos 40 e 50 na Espanha.
Não se esqueça
Esta coluna é um espaço destinado à cultura e músicas latinas. Mais informações sobre esses temas você encontra em www.ondalatina.com.br e no Canal Onda Latina:
Assista o trailer de El analfabeto :






