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Pesquisa acha DNA de bactéria da sífilis com mais de 5.000 anos

Redação by Redação
janeiro 24, 2026
in BRASIL
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Eles identificaram o DNA de uma bactéria bastante semelhante à causadora da moléstia nos ossos de um homem de meia-idade que morreu há 5.500 anos e foi sepultado no abrigo rochoso de Tequendama, área montanhosa na região metropolitana de Bogotá, na Colômbia.

REINALDO JOSÉ LOPES
SÃO CARLOS, SP ( JT) – As origens da sífilis, uma das mais temidas DSTs (doenças sexualmente transmissíveis) da história, provavelmente remontam a uma época em que a maioria dos indígenas da América do Sul vivia em grupos de caçadores-coletores, argumentam os autores de uma pesquisa publicada na última quinta-feira (22).

Eles identificaram o DNA de uma bactéria bastante semelhante à causadora da moléstia nos ossos de um homem de meia-idade que morreu há 5.500 anos e foi sepultado no abrigo rochoso de Tequendama, área montanhosa na região metropolitana de Bogotá, na Colômbia.

O material genético do micro-organismo corresponde a uma linhagem muito antiga da espécie Treponema pallidum, cujas subespécies atuais desencadeiam uma série de doenças, entre as quais a sífilis. Ao que tudo indica, a bactéria pré-histórica colombiana pertence a um subgrupo de T. pallidum que não bate exatamente com nenhuma dessas subespécies modernas.

Mas ela já carregava o que os biólogos moleculares chamam de genes de virulência -características de seu DNA que lhe permitiam invadir e explorar o organismo humano, causando danos ao hospedeiro. Isso significa que os ancestrais da T. pallidum já tinham tido um histórico anterior de adaptação ao corpo do H. sapiens, o qual, segundo estimativas dos próprios autores, pode ter começado no final da Era do Gelo, há 14 mil anos (eles advertem que esse cálculo, porém, ainda comporta muitas incertezas).

As descobertas estão descritas em artigo no periódico especializado Science. O trabalho foi coordenado por dois pesquisadores que trabalham na Suíça -Davide Bozzi e Anna-Sapfo Malaspinas, da Universidade de Lausanne- e também por Elizabeth Nelson, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz (Estados Unidos).

Antes dos achados a partir do esqueleto de Tequendama, o registro mais antigo do DNA dessas bactérias tinha vindo de um dos sambaquis (morros artificiais feitos por antigos indígenas) do litoral de Santa Catarina. Nesse estudo anterior, feito por pesquisadores brasileiros, a datação era de cerca de 2.000 anos, e a subespécie identificada foi a Treponema pallidum endemicum. Hoje, ela causa a doença conhecida como bejel, que começa com lesões na boca e na pele.

Há também, no entanto, a chamada bouba, moléstia que cria feridas na pele, nos ossos e nas juntas, desencadeada pela subespécie T. p. pertenue, e a sífilis propriamente dita (subespécie T. p. pallidum). Dessas, apenas a sífilis é transmitida rotineiramente por contato sexual. Durante séculos, ela teve manifestações letais, podendo causar deformidades e danos neurológicos. O tratamento com antibióticos, hoje, costuma combater qualquer um desses micróbios com bastante eficácia.

Os primeiros registros históricos da sífilis são de epidemias na Europa Ocidental no fim do século 15, poucos anos depois do retorno dos navios de Cristóvão Colombo em suas primeiras viagens ao continente americano. Havia incertezas sobre a origem da doença: de um lado, as datas pareciam indicar que ela surgira nas Américas, mas, por outro, o movimento de epidemias ao longo dos primeiros séculos coloniais quase sempre tinha sido do Velho Mundo para o Novo Mundo, e não o contrário.

Nas últimas décadas, estudos que identificaram lesões compatíveis com a sífilis e suas “primas” em esqueletos antigos, bem como, mais recentemente, os dados de DNA, deixaram claro que o centro de origem era mesmo a porção tropical do continente americano. Mas ainda faltam muitos detalhes a elucidar, e o novo estudo resolve alguns desses mistérios, ainda que nem de longe todos eles.

O primeiro tem a ver com as condições sociais que levaram à origem desse subgrupo de moléstias. No Velho Mundo, muitas das principais doenças infecciosas apareceram em associação com a domesticação de plantas e animais e o aumento da densidade populacional que esse processo muitas vezes desencadeia.

De acordo com esse modelo, além do aumento do número de habitantes e da proximidade entre eles com a formação de vilas e cidades -dois fatores que facilitam a transmissão mais rápida de um micróbio causador de doenças-, a presença constante dos animais domésticos ao lado dos seres humanos também facilita a passagem de micro-organismos típicos dos bichos para o organismo do H. sapiens.

O cenário há 5.500 anos em Tequendama, no entanto, é bem diferente disso. A região presenciava movimentos populacionais na época, segundo o que a arqueologia revela, mas ainda era habitada por caçadores-coletores, como o homem (com idade estimada entre 45 anos e 60 anos no momento da morte) que carregava a bactéria em seu organismo.

É aí que entra outro detalhe importante dos achados. O “álbum de família” montado pelos pesquisadores a partir do DNA antigo da Colômbia e de outras amostras antigas e modernas indica algumas semelhanças entre a linhagem da bactéria e a de outro tipo de Treponema que afeta coelhos selvagens.

Não se trata do ancestral direto do T. pallidum, mas, para os pesquisadores, é uma pista de que a sífilis e as demais doenças podem ter vindo originalmente do contato dos caçadores indígenas, talvez ainda na Era do Gelo, com bactérias dos animais que caçavam. Esse é um mecanismo muito importante para a gênese de doenças emergentes ainda hoje.

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