BERLIM, ALEMANHA (JORNAL DA TARDE) – Após um fim de semana de protestos por moradia que levaram dezenas de milhares às ruas na Espanha, o primeiro-ministro, Pedro Sánchez, anunciou nesta segunda-feira (5) a dissolução do Parlamento e a convocação de eleições no país. O pleito está marcado para 29 de novembro.
Sánchez aposta na insatisfação popular para superar um Congresso hostil, que derrubou dois decretos de seu governo relacionados à habitação na semana passada. O despejo de uma idosa de 87 anos, que ganhou projeção internacional, escancarou a crise habitacional espanhola, uma das mais graves entre muitas percebidas nas capitais europeias.
“Precisamos renovar o apoio da população”, afirmou Sánchez em discurso. “Precisamos nos mobilizar e conquistar uma maioria progressista muito maior no parlamento, que nos permita superar os interesses estabelecidos, alcançar novos avanços sociais e continuar transformando a Espanha.”
Alberto Núñez Feijóo, do Partido Popular, principal nome da oposição, afirmou que “finalmente” o país poderá “fechar esse capítulo e abrir outro melhor”. “É uma escolha entre corrupção e decência, entre declínio e prosperidade, entre um governo que aspira apenas a sobreviver e um país que olha para o seu futuro”, declarou o conservador em entrevista, pouco depois do anúncio feito pelo premiê.
Tentar alavancar o Partido Socialista, com o qual governa em minoria, é uma manobra de risco de Sánchez, segundo analistas. Pesquisas de opinião mostram o bloco de esquerda enfraquecido no país, após uma série de escândalos relacionados ao entorno do primeiro-ministro e à condução da crise imigratória em Ceuta.
“Também sei que parte dessa maioria social está insatisfeita hoje”, disse Sánchez em seu pronunciamento. Segundo o líder socialista, uma das poucas vozes da esquerda na União Europeia, buscar a maioria no Congresso é uma tarefa necessária para manter a Espanha como “um bastião da abertura, da justiça social e da responsabilidade ambiental”.
As medidas elaboradas por Sánchez para enfrentar a onda de protestos incluíam a proibição de despejos de inquilinos vulneráveis até 2030, a prorrogação do congelamento do aluguel por dois anos para contratos já em vigor e regras mais rígidas para locações de curto prazo.
Um acampamento na Puerta del Sol, o marco zero de Madri, transformou-se em símbolo do movimento. O protesto, que começou há pouco mais de uma semana, vem atraindo cada vez mais adeptos. Segundo o Sindicato dos Inquilinos, um dos organizadores, há mais de 1.200 tendas registradas no local.
Os manifestantes haviam afirmado que não sairiam do local até a aprovação dos “decretos Maricarmen”, assim conhecidos devido a Maricarmen Abascal, 87. Na quarta-feira (23), as cenas da polícia retirando-a de maca do apartamento em que viveu por sete décadas correram o mundo e deram gás ao movimento.
Os decretos foram derrubados pela oposição na sexta-feira (2) com ajuda do partido separatista catalão Junts, que emprestava apoio intermitente a Sánchez, desde que o premiê negociou uma anistia a seus dirigentes em troca de apoio à sua coalizão de governo. Segundo os críticos, o pacote não tinha capacidade de resolver o problema e ainda restringiria o mercado imobiliário espanhol.
O gabinete de Sánchez estuda submeter novos decretos, com redação modificada, à Diputación Permanente, órgão parlamentar espanhol que faz às vezes de Congresso em períodos de férias e entre legislaturas. Nesse grupo, as chances de aprovação do governo são melhores.
O assunto mobiliza principalmente os jovens, faixa de idade mais afetada pela disparada dos preços dos aluguéis. Segundo o Conselho da Juventude da Espanha, as locações dobraram na última década. “Essa luta não vai esperar por nenhum calendário eleitoral”, declarou Alicia del Río, porta-voz do Sindicato de Inquilinos.
O grupo defende uma greve geral e convidou associações que defendem outras causas, como a melhora em aposentadoria, educação e salários, para engrossar a manifestação permanente na Puerta del Sol. A Justiça negou pedido de reintegração de posse feito pela prefeitura de Madri.
“Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance e nos empenhamos em construir um mundo melhor. Apoiamos a Ucrânia, a UE e a ONU, combatendo os tiranos e os tecnoligarcas”, declarou Sánchez, sublinhando o peso internacional de seu governo. O premiê, entre outros pontos em sua trajetória, é uma das vozes mais críticas na Europa ao presidente americano, Donald Trump.
Líder do Vox, Santiago Abascal não vê favoritos nas eleições em novembro, apesar das pesquisas indicarem favoritismo do bloco de direita. “As pesquisas diziam o mesmo em 2023, e Sánchez conseguiu formar uma maioria com todos os seus cúmplices”, afirmou o líder de ultradireita em entrevista ao canal Antena 3.










