SÃO PAULO, SP (JORNAL DA TARDE) – A parceria entre Benedito Ruy Barbosa e Almir Sater é antiga. Foi o autor quem enxergou no violeiro a autenticidade para representar o homem do campo, transformando-o em um rosto associado ao universo retratado em suas novelas.
Os dois se aproximaram no fim dos anos 1980, durante a preparação para a novela “Pantanal”. Sater conta que Benedito tinha uma relação íntima com a música e acompanhava de perto a escolha da trilha sonora de suas obras.
O cantor Sérgio Reis, que participava da produção musical da novela, levou o nome do violeiro ao dramaturgo. “Brinquei com o Sérgio que ele precisava me puxar para o projeto também”, relembra.
O convite veio pouco depois. Chamado para visitar as gravações, Sater recebeu um texto das mãos de Benedito e ouviu que teria dez minutos para decorá-lo. Em seguida, interpretou a cena para o autor e foi escalado para viver Trindade, personagem que daria início à sua carreira como ator.
A pedido de Benedito, Sater gravou uma nova versão de “Chalana”, clássico composto por Mario Zan em 1943, que se tornou uma das músicas mais lembradas de “Pantanal”. Anos depois, o violeiro voltaria a trabalhar em novelas do autor, como “O Rei do Gado”, e também em “Renascer”, adaptação escrita por Bruno Luperi, neto de Benedito.
O filho do violeiro, Gabriel Sater, participou de “Pantanal” e “Renascer”, as duas adaptações de Luperi das novelas do avô.
Segundo Sater, Benedito conhecia profundamente o universo caipira e via na viola uma expressão legítima da cultura brasileira. “Ele alavancou minha carreira como ator e como músico também”, afirma. O cantor diz ainda que os dois desenvolveram uma relação quase paternal e que o dramaturgo foi decisivo em sua trajetória artística.
Ao lamentar a morte do escritor, Sater afirmou que Benedito era “muito querido” e tinha a capacidade de retratar como poucos o “Brasil profundo”. “Ele conhecia muito sobre o folclore da viola, do folclore do Brasil”, disse o músico.
Sater ainda lembra uma conversa em que perguntou ao amigo se alguma de suas novelas não havia feito sucesso. “Ele respondeu que não. Todas foram sucesso de audiência”, contou. Para o músico, havia uma explicação simples. “Quando você fala do Brasil de um jeito bonito, é sempre um sucesso. O povo gosta de se enxergar ali, daquele jeito”.
Benedito Ruy Barbosa morreu nesta terça-feira (7), aos 95 anos, em decorrência de complicações de insuficiência renal crônica. Internado no Hospital do Coração (HCor), em São Paulo, o dramaturgo deixa um legado de mais de duas dezenas de novelas, entre elas “Cabocla”, “Os Imigrantes”, “Paraíso”, “Pantanal”, “Renascer”, “O Rei do Gado” e “Terra Nostra”, que ajudaram a moldar a história da televisão brasileira
O corpo do dramaturgo será velado nesta terça, entre 15h e 21h, na Funeral Home, próxima à avenida Paulista, na região central de São Paulo, com abertura para o público entre 15h e 16h.











