Beth Goulart está em cartaz com o espetáculo “Simplesmente eu, Clarice Lispector”
Em cartaz no Teatro Fashion Mall, em São Conrado, no Rio de Janeiro, o espetáculo “Simplesmente Eu, Clarice Lispector” reafirma a potência artística de Beth Goulart, de 64 anos, em um trabalho que une atuação, direção e adaptação assinadas pela própria atriz, com supervisão de direção de Amir Haddad. Em entrevista exclusiva ao Portal iG, Beth falou sobre a emoção de retornar aos palcos com o espetáculo, a relação íntima com a obra de Clarice e a resposta arrebatadora do público.
Para a atriz, cada apresentação é atravessada por entrega absoluta e por uma relação afetiva construída ao longo dos anos com o texto e com a plateia. “É sempre um prazer imenso fazer esse espetáculo, um espetáculo que a gente faz com todo o amor do mundo, com toda a nossa alma. Ele tem muito da gente mesmo”, afirma. Essa dedicação se traduz em uma interpretação que frequentemente apaga a figura da atriz para que a personagem possa emergir por completo. “Muitas pessoas me dizem que não viram a Beth, viram apenas a Clarice. A Camila Amado falava algo muito bonito, que o teatro não é a arte da presença, é a arte da ausência, quando o artista some para que o personagem possa aparecer. Fico muito feliz de ouvir isso, porque é um sinal de que estou cumprindo o meu trabalho da melhor forma possível.”
O retorno da temporada no Rio, na última sexta-feira (9), foi marcado por uma emoção ainda mais profunda. Beth dedicou a apresentação aos pais, Paulo Goulart e Nicette Bruno, em datas simbólicas de aniversário, transformando a noite em uma homenagem pessoal e tocante. “Foi um dia muito especial, porque era o aniversário do meu pai e minha mãe tinha feito aniversário dois dias antes. Eu aprendi com eles a beleza dessa arte, a me dedicar ao palco e à interpretação. Poder fazer essa homenagem a eles foi uma alegria muito grande para mim. Foi um espetáculo muito emocionante em todos os sentidos, inclusive por estarmos iniciando o ano com uma nova temporada, o que é sempre estimulante.”
“Simplesmente Eu, Clarice Lispector”
Ao longo de sua trajetória, “Simplesmente Eu, Clarice Lispector” tem percorrido diversas cidades do país e, segundo a atriz, continua surpreendendo pela força da recepção do público. Beth recorda com especial impacto uma apresentação em Juiz de Fora (MG), diante de um teatro lotado. “Eram cerca de duas mil pessoas completamente envolvidas pelo espetáculo, numa emoção muito genuína e potente. No momento dos agradecimentos, os aplausos não paravam. Aquilo realmente me surpreendeu, porque as pessoas queriam que eu soubesse o quanto aquilo tinha tocado nelas, e isso chegou muito forte em mim.”
Para Beth Goulart, essa troca intensa reforça a natureza efêmera do teatro, que se renova a cada noite. “O teatro é uma arte do agora, uma arte que nunca se repete. Quem esteve presente naquele dia viveu aquela experiência única. A apresentação de hoje já é diferente da de amanhã, com outra emoção, outro sentimento. Essa potência do instante é algo muito bonito e, às vezes, inesquecível.”
Semelhanças com Clarice Lispector
Questionada sobre o quanto existe de Beth em Clarice, a atriz reconhece que a construção da personagem passa, necessariamente, por suas próprias vivências. Ela conta que esse foi um dos principais ensinamentos de Amir Haddad durante o processo criativo. “Ele me disse que, em vez de buscar apenas a angústia e a solidão da Clarice, eu deveria falar da minha própria angústia e da minha solidão, porque quanto mais eu estivesse em mim, mais perto dela eu estaria.” Assim, as palavras da escritora ganham corpo a partir das dores, descobertas, encantamentos e processos internos da própria atriz.
“O que coloco no palco, através das palavras de Clarice, também fala das minhas dores, das minhas angústias, do meu processo criativo. O espetáculo tem muito de mim, claro que sempre dentro do universo dela”, explica. Para Beth, a arte da interpretação está justamente nesse paradoxo delicado de desaparecer e, ao mesmo tempo, servir de instrumento. “Você some dentro do personagem, mas é através de você que ele existe. A energia é minha, a vivência é minha, mas eu entrego tudo para Clarice. É assim que dou corpo, alma e presença a essa voz.”






