SANTOS, SP (FOLHAPRESS) – A queda da Albânia para a Polônia, em Varsóvia, nesta quinta-feira (26), pela semifinal da repescagem europeia para a Copa do Mundo, frustrou o sonho de 2,4 milhões de albaneses de vivenciar o primeiro Mundial da história do país, mas, curiosamente, também pode ter sido um duro golpe para o futebol brasileiro.
Com a equipe dirigida pelo ex-lateral e hoje técnico Sylvinho eliminada, a Copa 2026 pode ser a primeira da quase centenária história do torneio em que não haverá um único técnico brasileiro no banco de reservas. E isso no maior Mundial de todos os tempos -que teve o número de seleções ampliado de 32 para 48.
“Em 2013, mencionei em uma declaração ao [jornal] O Globo que estávamos defasados em termos de trabalho quanto aquilo que faziam fora do país. Um ano depois, o Zico ratificou essa minha fala. Depois de ficar muito tempo fora, vi que era necessário abrirmos os olhos. Que da forma como as coisas estavam acontecendo, ficamos para trás. Alguns companheiros de profissão ficaram chateados, mas aí veio 2014, o 7 a 1…”, disse à reportagem o técnico Paulo Autuori, que foi demitido nesta quinta-feira pelo Sporting Cristal, do Peru.
“E eu falava de todos nós treinadores brasileiros, não de um ou outro profissional. A sensação que havia no país era de que não precisávamos aprender nada pelo fato de sermos pentacampeões do mundo. A alta quantidade de técnicos estrangeiros, que jamais vou ser contra até por ter sido um imigrante por anos, e a ausência na Copa são consequências”, completou.
Duas vezes campeão da Copa Libertadores, Autuori jamais dirigiu uma seleção em um Mundial, mas carrega no currículo longas passagens pelo futebol português -onde iniciou a carreira de técnico, passando por Nacional, Vitória de Guimarães, Marítimo e Benfica. Trabalhou também em países como Japão, Catar, Bulgária, Colômbia e Peru.
Desde 1930, quando a seleção brasileira foi comandada pelo paulistano Píndaro de Carvalho Rodrigues, sempre houve a presença de um ou mais técnicos brasileiros em todas as 21 edições seguintes.
A primeira vez com dois deles foi registrada em 1966, quando Vicente Feola dirigiu o Brasil e Otto Glória comandou Portugal até a terceira colocação da competição naquele ano, a melhor da história do país europeu até hoje.
A partir de então, passou a ser comum a presença de brasileiros à frente de outras seleções. Casos de Didi pelo Peru, em 1970; Alexandre Guimarães pela Costa Rica, em 2002 e 2006; René Simões pela Jamaica e Paulo César Carpegiani pelo Paraguai, em 1998, além de outros como Zico, Marcos Paquetá e Luiz Felipe Scolari, que dirigiu Portugal em 2006.
O recordista absoluto é Carlos Alberto Parreira, que trabalhou como treinador em seis Copas: duas pelo Brasil (1994 e 2006), uma pelo Kuwait (1982), uma pelos Emirados Árabes Unidos (1990), uma pela Arábia Saudita (1998) e última pela África do Sul (2010).
“Há treinadores brasileiros jovens que não devem nada em termos conceituais e metodológicos a estrangeiros como Sampaoli, Lacarmón, Varini ou outros de fora com qualidade. O meu objetivo é abrir espaço para eles, é isso que me dá brilho nos olhos. Foi o que fiz no Athletico-PR e no Cruzeiro, com mentorias. Nos mantivemos cômodos por muito tempo”, relatou Autuori.
Colaborou para a quebra da estatística o fato de a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) ter apostado em maio de 2025 na contratação de um técnico estrangeiro, Carlo Ancelotti. O experiente italiano, vencedor de cinco edições de Champions League, chegou como mais nem pago treinador de seleções do mundo depois das fracassadas experiências com Fernando Diniz e Dorival Júnior.
Nas últimas duas Copas, Tite comandou a seleção brasileira, sucumbindo nas quartas de final, enquanto o país não teve representantes à frente de outras seleções.
Ancelotti não é o primeiro estrangeiro no comando da seleção, que já contou com o uruguaio Ramón Platero, em 1925, o português Joreca, em 1944, e até mesmo um argentino: Filpo Nuñez, em 1965. Nenhum deles, porém, chegou até a Copa.
“Há pouco tempo, companheiros nossos falaram sobre Ancelotti e foram muito desagradáveis nas respostas. Não penso da mesma forma, tive a oportunidade de trabalhar muitas vezes fora e sou muito aberto a estrangeiros. Tentamos vários treinadores brasileiros e os resultados não foram bons. Por isso se pensou em um estrangeiro e talvez o melhor de todos eles pelos títulos, experiência e qualidade comprovadas. Lamentamos a falta de um brasileiro só pelo bom trabalho do Sylvinho”, analisou Carpegiani à reportagem.
Sylvinho assumiu a seleção albanesa em janeiro de 2023. A passagem que deve ser encerrada com o fim do contrato em junho teve como ápice a vaga na última Eurocopa, a segunda da história do país, que fez com que ganhasse o prêmio Águia de Ouro das mãos do primeiro-ministro do país.
Na competição europeia, teve elogiada participação na fase de grupos, dificultando nos jogos contra Espanha e Itália, além de ter conseguido um empate com a Croácia. Levou a Albânia à disputa de sua primeira repescagem na história, em grupo liderado pela Inglaterra, mas não conseguiu superar os poloneses.





