SÃO PAULO, SP (JORNAL DA TARDE) – O dólar sobe nesta quarta-feira (14), com investidores cautelosos diante das incertezas eleitorais e à espera de uma nova pesquisa de intenção de voto para a Presidência, prevista para depois do fechamento do pregão.
No exterior, os investidores acompanham os dados de inflação dos Estados Unidos, que ajudam a calibrar as expectativas para os próximos passos do Fed (Federal Reserve, o banco central americano) em relação aos juros. No cenário doméstico, a possível aprovação do fim da escala 6×1 pelo Senado também está no radar, diante dos potenciais efeitos da medida sobre os custos das empresas.
Por volta das 14h40, a moeda americana subia 0,22%, a R$ 5,034. No exterior, o índice DXY, que mede o desempenho do dólar ante uma cesta de seis moedas fortes, avançava 0,55%.
No mesmo horário, a Bolsa recuava 0,01%, aos 206.893 pontos, com ações de bancos entre as quedas e papéis da Petrobras entre as altas.
O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) dos Estados Unidos subiu 0,6% em setembro, após avançar 0,4% em agosto, segundo o Departamento do Trabalho americano. Em 12 meses, a inflação acumulada acelerou para 3,7%, ante 3,4% até agosto.
O resultado mensal ficou em linha com a expectativa de economistas consultados pela Reuters, mas a taxa acumulada em 12 meses superou a projeção de 3,6%. A alta foi impulsionada principalmente pela gasolina, cujos preços dispararam 7,1% em setembro, segundo a Administração de Informações sobre Energia (EIA, na sigla em inglês).
O núcleo da inflação, que exclui os preços mais voláteis de alimentos e energia, subiu 0,3% em setembro, repetindo a variação de agosto. Em 12 meses, o indicador avançou 2,6%, acima dos 2,4% registrados até agosto.
“O núcleo acima do esperado e a aceleração em 12 meses jogam lenha na fogueira da preocupação com a inflação, que segue distante da meta de 2%, em especial pela gasolina. O payroll fraco de setembro, que veio abaixo da expectativa e trouxe revisões para baixo nos meses anteriores, é um alerta e merece atenção”, diz Vitor Kayo, economista sênior na Nomad.
Para Leonel Oliveira Matos, analista de inteligência de mercados da StoneX, o resultado mostra que a inflação nos Estados Unidos está mais persistente do que o esperado e não apresenta sinais de estabilização. “O resultado pode não ser suficiente para provocar uma alta de juros na decisão de outubro, mas certamente abre o debate e deixa mais claro o balanço de riscos enfrentado pelo Fed, diante de um desafio inflacionário mais complexo.”
A ferramenta FedWatch mostra que os dados alteraram as expectativas para os juros americanos, hoje no intervalo entre 3,75% e 4%. Na terça-feira, a probabilidade de manutenção da taxa na reunião de 28 de outubro era de 77,86%. Após a divulgação do CPI, o percentual caiu para 50,7%.
Segundo Matos, a divulgação do CPI aumenta as apostas dos investidores em novas altas de juros pelo Federal Reserve, o banco central americano. Esse cenário favorece os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, os Treasuries, e pode atrair capital para o país, fortalecendo o dólar.
No cenário doméstico, os investidores também acompanham a disputa eleitoral. Nesta quarta-feira, será divulgada a primeira pesquisa Quaest sobre o segundo turno da eleição presidencial. O levantamento está previsto para as 18h, com divulgação pela GloboNews. O resultado deve trazer novos sinais sobre a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Após o primeiro turno, o resultado eleitoral foi recebido com otimismo por parte do mercado financeiro. No pregão seguinte à votação, a Bolsa superou pela primeira vez a marca dos 200 mil pontos, enquanto o dólar recuou para abaixo de R$ 5. Os juros futuros também caíram, com recuo superior a 100 pontos-base ao longo da semana.
A reação refletiu a expectativa de alternância de poder e de uma condução fiscal mais sólida, segundo analistas. Essa perspectiva pode reduzir a percepção de risco sobre os ativos brasileiros e aumentar o apetite dos investidores por ações e títulos do país.
Com uma trajetória mais controlada da dívida pública, o governo poderia pagar juros menores para se financiar, o que tenderia a aliviar as taxas de mercado. Juros mais baixos, por sua vez, reduzem o custo do crédito para empresas e podem favorecer os lucros e a valorização das ações.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na liderança, com 47,03% dos votos, ante 45,16% de Lula. Os dois disputarão o segundo turno, marcado para o próximo dia 25.
O pregão também repercute a possível aprovação do fim da escala 6×1. O plenário do Senado vota a PEC (proposta de emenda à Constituição) nesta quarta-feira. Para ser aprovada, a proposta precisa do apoio de ao menos 49 dos 81 senadores, em dois turnos de votação.
A mudança pode elevar os custos de empresas de determinados setores, embora possíveis ganhos de produtividade possam compensar parte desse efeito.
A PEC reduz a jornada semanal máxima de 44 para 40 horas, prevê duas folgas semanais, uma delas preferencialmente aos domingos, e proíbe a redução da remuneração.
“Os setores serão impactados de formas completamente diferentes. O efeito vai depender da capacidade de reorganizar as escalas e melhorar a produtividade. Alguns setores, como varejo, supermercados, restaurantes e hotelaria, tendem a enfrentar desafios maiores, porque podem precisar contratar mais funcionários ou absorver custos adicionais. Isso pode reduzir as margens de lucro”, diz Gabriel Cecco, especialista da Valor Investimentos.









