(JORNAL DA TARDE) – Quase 30% das empresas que receberam os maiores valores do banco de Daniel Vorcaro, em transações declaradas à Receita Federal como pagamentos por serviços prestados, são firmas muito jovens, que só passaram a existir a partir de 2021, ano em que a instituição começou a operar como Master.
Entre as 117 empresas que receberam ao menos R$ 5 milhões do banco, 35 têm esse perfil, de acordo com levantamento feito com base em documentos do Fisco enviados à CPI do Crime Organizado.
Somados, os pagamentos às empresas mais novas giram em torno de R$ 870 milhões entre 2022 e 2025. Ao menos uma dúzia delas recebeu recursos do Master poucos meses depois de ter sido constituída.
Vorcaro assumiu o controle do Banco Máxima em 2019, mas a instituição só foi rebatizada e passou a operar como Master em 2021. A assessoria dele não quis comentar.
Algumas empresas foram alvo de operações da Polícia Federal ou estão ligadas a pessoas investigadas no escândalo financeiro. Outras abrangem beneficiários de programas de transferência de renda do governo. Há ainda casos de firmas com dados falsos nos cadastros da Receita.
Não é possível afirmar se parte dessas empresas foi criada apenas para receber recursos do banco, por meio de transferências que a instituição financeira classificou ao Fisco como pagamentos por serviços prestados. Em alguns casos, porém, as características são consideradas por especialistas indicadores de possíveis negócios de fachada.
Um dos exemplos é o da Telure, fundada em 2023, que recebeu mais de R$ 110 milhões do Master. Segundo o próprio cadastro da empresa, a diretora é Fabia Franca. Ela recebeu R$ 5.000 de auxílio emergencial do governo durante a pandemia, situação que contrasta com o perfil de diretora de uma empresa com faturamento desse porte.
Fabia também é diretora da Nanook, criada dois meses antes e que recebeu outros R$ 93 milhões, e da Utter, fundada em julho de 2022, que recebeu R$ 48 milhões.
No total, as três empresas ligadas a Fabia receberam mais de R$ 250 milhões. Todas apresentam dados inválidos no cadastro de CNPJ, como o telefone 1111-1111. Não foi possível localizar representantes das companhias.
Na avaliação de Rafael Alcadipani, professor da FGV e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a existência de empresas jovens pode ter explicações legítimas, mas o alto volume de recursos e os dados cadastrais falsos deveriam acender alertas nos órgãos de controle.
“Já existe inteligência artificial para checar volumes gigantes de dados. Dá para evitar situações tão escancaradas. Telefone com número repetido é escárnio. Deveria haver algum alerta no sistema da Receita para impedir isso. É um expediente típico de empresa de fachada usado pelo crime organizado até para lavar dinheiro”, afirmou.
Outro caso é o da Metanoein, criada em 2021 e atualmente investigada em um suposto esquema de lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa. A empresa recebeu R$ 102 milhões do Master.
Em abril deste ano, a 8ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro impediu a transferência de valores ligados à empresa, após pedido do Ministério Público Federal para o sequestro de contas e aplicações financeiras de sua sócia, Rose Evelyn Coité, e de seus filhos. Eles são apontados como reais proprietários de postos de gasolina mantidos em nome de terceiros.
Coité não respondeu às tentativas de contato por e-mail e WhatsApp.
Entre os negócios recém-criados também está a Copenhagen, empresa com capital de R$ 40 que recebeu R$ 58 milhões do Master. Seu diretor era Artur Figueiredo, que deixou a companhia em julho de 2025. No mês seguinte, ele foi citado na Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, sobre crime organizado no setor financeiro.
O nome da Copenhagen voltou ao noticiário após a revelação de que o senador e candidato presidencial Flávio Bolsonaro (PL-RJ) emitiu e depois cancelou notas fiscais para a empresa.
Figueiredo afirmou que seus atos na administração foram lícitos e disse repudiar qualquer associação de sua imagem a organizações criminosas.
Empresas citadas apresentam explicações
Aberta em 2023, a Eclipse recebeu R$ 47 milhões e foi registrada em um sobrado residencial simples em Contagem (MG), onde também funciona uma consultoria cuja sócia recebeu auxílio emergencial.
A empresa informou que prestou serviços de infraestrutura de tecnologia com mais de cem profissionais e que opera de forma remota. Segundo a Eclipse, o imóvel foi usado apenas como endereço cadastral, sem atividade operacional.
Mídia e política
Entre as empresas mais recentes também aparecem negócios ligados a nomes conhecidos. A Massa Intermediação, fundada em junho de 2021 e que tem como sócio Carlos Roberto Massa, o apresentador Ratinho, recebeu R$ 20 milhões. A empresa informou que mantém contratos “de natureza privada”. Ratinho foi garoto-propaganda do cartão consignado do Master.
No mesmo ano, foi fundada a BN Financeira, pertencente a Bonnie Bonilha, mulher do enteado do senador Jaques Wagner (PT-BA). A empresa entrou no radar das investigações da Polícia Federal no mês passado.
Procuradas, a BN e Bonilha não responderam. Em manifestação anterior, a companhia afirmou ter prestado serviços de “prospecção e indicação de operações e convênios de crédito”.
Também aparecem na lista a AB Serviços, de Bruno Neves, superintendente do Ibama na Bahia, fundada em 2021 e que recebeu R$ 19,7 milhões; e a Lewandowski Advocacia, de parentes de Ricardo Lewandowski, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal e da Justiça no governo Lula, aberta em 2023 e que recebeu R$ 6,1 milhões.
A assessoria de Lewandowski informou que, após deixar o STF, em 2023, ele voltou à advocacia e passou a atender diversos clientes, entre eles o Master.
Já a assessoria de Bruno Neves afirmou que a AB prestava serviços de consultoria, assessoria e relação comercial de forma regular, com relatórios e tributos pagos. Também informou que, depois de assumir o Ibama na Bahia, em 2023, Neves se afastou da atividade da empresa.
A Pollaris Consultoria, do ex-ministro Guido Mantega, recebeu R$ 14 milhões do Master e foi criada em 2024. Mantega afirma prestar consultoria a outras empresas além do banco.
A A&M Consultoria, administrada pelo ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil-BA), foi fundada em 2022 com capital de R$ 2.000 e recebeu R$ 5,5 milhões. Em manifestação anterior, a empresa afirmou que os serviços foram devidamente prestados.
Escritórios de advocacia
Nomes conhecidos da advocacia também aparecem entre os recebedores por meio de CNPJs mais recentes.
O escritório de Marcus Vinicius Furtado Coêlho, ex-presidente nacional da OAB, abriu, em janeiro de 2025, um novo CNPJ em Belo Horizonte, que recebeu R$ 17,5 milhões. Uma unidade mais antiga, aberta em Brasília em 2012, recebeu outros R$ 10 milhões.
O escritório afirmou que possui outras unidades e “advoga para centenas de empresas no país, incluindo dezenas de clientes de Minas Gerais”.
Walfrido Warde, cujo escritório funciona há cerca de 30 anos em São Paulo e recebeu mais de R$ 50 milhões do Master, abriu um novo CNPJ em Brasília em 2022. Essa unidade recebeu outros R$ 23 milhões.
A assessoria informou que o escritório foi constituído conforme a legislação, possui sede, endereço e funcionários, além de dezenas de clientes. Segundo a nota, a abertura em Brasília ocorreu em razão da expansão da atuação na capital federal.
No escritório Monteiro Rusu, um novo CNPJ foi aberto em Salvador em 2022 e recebeu quase R$ 51 milhões. O sócio Daniel Monteiro, apontado pelas investigações como arquiteto jurídico do Master, também integra um escritório mais antigo em São Paulo, que recebeu R$ 28 milhões.
Monteiro afirmou que a abertura da unidade baiana ocorreu em razão da expansão para o Nordeste e que a equipe conduziu 12 mil processos.
O irmão dele, David, também aparece ligado à Odda Tecnologia, empresa jovem que recebeu quase R$ 25 milhões. Ele não respondeu às tentativas de contato.
No caso da EQI Partners Consultores, trata-se de um novo braço do grupo EQI, que atua há quase 20 anos no segmento de assessoria de investimentos. A empresa afirma ter prestado serviços de estruturação e cessão de carteira de crédito consignado e diz que sua abertura, em junho de 2022, antecedeu o contrato com o Master, firmado em janeiro de 2024.
Correspondentes bancários
Outro grupo relevante entre os recebedores é o de correspondentes bancários. A Única Promotora, registrada em Divisópolis (MG), município de cerca de 10 mil habitantes, foi aberta em 2021 e recebeu quase R$ 25 milhões.
Seu sócio, Bruno Silveira Iacomini, possui outras empresas registradas em Almenara (MG). O município, com aproximadamente 40 mil habitantes, reúne dez firmas que receberam pagamentos do Master, entre elas a Nova Promotora, também criada em 2021.
A Única afirmou que os valores recebidos decorreram de serviços regulares e que o local de sua sede não tem relação com a natureza ou a dimensão das operações.
A Nova informou que o Master não foi seu único cliente e que o contrato foi regular. Segundo a empresa, a coincidência entre sua abertura e o período de expansão do banco não permite conclusões sobre sua finalidade.
A lista de CNPJs recentes também inclui a Meta Consultoria, de Ronaldo Bento, ex-ministro da Cidadania no governo Bolsonaro, e a Consult Inteligência, de Francisco Craveiro, ligada ao filho do ministro do STF Kassio Nunes Marques.
Em manifestação anterior, a Consult afirmou ter realizado auditoria e consultoria tributária, além do desenvolvimento e da implantação de sistemas. Kevin Marques declarou ter recebido R$ 281,6 mil da empresa por 11 meses de serviços de assessoria jurídica.
Também aparece a MAA, de Marcio Alaor Araújo, ex-vice-presidente do BMG. Neste ano, ele foi alvo de um pedido de indiciamento no relatório da CPMI do INSS, que o apontava como “articulador de esquemas de empréstimos consignados fraudulentos”. Ele nega as acusações, e o relatório acabou rejeitado.
Araújo afirmou que, entre 2022 e 2024, prestou consultoria ao Master para a expansão e o desenvolvimento das operações de crédito consignado e que esses serviços não têm relação com os fatos investigados.







