ANA CORA LIMA
RIO DE JANEIRO, RJ (JORNAL DA TARDE) – José de Abreu, 80, alcança uma marca rara na televisão brasileira. São 60 anos de carreira, dos quais 45 dedicados à Globo. Prestes a estrear um novo personagem em “Por Você”, próxima novela das sete da emissora, o ator afirma que continua trabalhando em ritmo intenso e diz considerar a longevidade na profissão resultado de uma combinação de talento, oportunidade e sorte.
“Mantenho a média de uma novela por ano. Não paro”, afirma. Apesar da sequência de trabalhos, reconhece que a realidade não é a mesma para todos os colegas. “Tem muito bom ator que não consegue trabalhar por mil motivos. Eu acho que é sorte minha. Sou um cara sortudo.”
Na trama escrita por Dino Cantelli e Juliana Peres, ele interpretará Próspero, um paulista da Mooca que se muda para o Rio de Janeiro, abre um bar e se envolve em uma disputa bem-humorada com Clemente, personagem de Antônio Pitanga, 87, e dono de um estabelecimento concorrente.
A rivalidade ganha contornos cômicos pela paixão dos dois pelo futebol: um é palmeirense e o outro, flamenguista. “O lado dramático da novela é muito bonito, mas nós fazemos o alívio cômico”, conta.
O núcleo também reúne Rodrigo Lelis e Inês Peixoto e terá uma trama envolvendo palhaços que visitam hospitais para levar entretenimento aos pacientes.
Embora seja lembrado por personagens densos e vilões marcantes, Abreu diz que a comédia marcou o início de sua trajetória na televisão. Ele relembra trabalhos como a primeira versão de “Ti Ti Ti” (1985) e afirma que, ao longo dos anos, acabou sendo escalado com mais frequência para papéis dramáticos. “Comecei na comédia e adorava. Foram me chamando para o drama e pegou”, reforça.
O ator também comemorou a parceria inédita com Antônio Pitanga. Amigos de longa data, os dois nunca haviam contracenado em uma novela. “A gente tem muita afinidade artística e pessoal. Está sendo muito divertido trabalhar junto.”
Ao falar sobre as mudanças no mercado audiovisual, ele avalia que o fim dos contratos de exclusividade da Globo deu mais liberdade aos atores para circularem entre emissoras e plataformas de streaming. Segundo ele, a nova dinâmica permitiu que artistas passassem a alternar trabalhos. “Hoje todo mundo é meio freelancer. Faz Netflix, HBO, Disney+, volta para a Globo, faz Globoplay.”
Conhecido pelo seu ativismo político, o ator afirma que jamais sofreu qualquer tipo de censura dentro da Globo. “Muita gente me perguntava: ‘Como é que você consegue?’. Eu dizia que não sabia. Já conversei com alguns diretores, com os filhos do Roberto Marinho, e ninguém nunca me pediu nada, nunca me chamou a atenção.”
Abreu conta que os proprietários da emissora sempre lhe deram liberdade para se posicionar. “Eles até já me tranquilizaram: ‘Você é nosso, você tem a cara da Globo, cara de um bom ator. Você pode fazer o que você quiser, não vai acontecer nada.'”
Apesar disso, afirmou que interromperá suas manifestações públicas sobre política quando entrar em vigor o período de restrições previsto na legislação eleitoral. “A partir do dia 17, eu tenho que me calar. Não é pela Globo, é pela lei eleitoral. Quem está no ar não pode ter participação política”, explica o ator que chegou a anunciar em fevereiro que pretendia se candidatar à Câmara dos Deputados nas eleições deste ano pelo PT, mas desistiu no mês seguinte. Há quatro anos, ele também recuou da candidatura.











