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Juros do consignado privado atingem pico de 59,4% em fevereiro, mostra BC

Redação by Redação
março 30, 2026
in ECONOMIA
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A insatisfação de Lula com os juros cobrados na modalidade é antiga e, ao contrário das expectativas do governo, a taxa média segue subindo. No ano passado, o presidente chegou a pedir um diagnóstico do Ministério da Fazenda para baratear o custo do crédito

() – A taxa média de juros do consignado privado atingiu o pico de 59,4% ao ano em fevereiro, mostram dados divulgados pelo Banco Central nesta segunda-feira (30). A cobrança de juros abusivos e o avanço do endividamento das famílias são motivos de preocupação para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O recorde foi registrado depois de uma alta mensal de 2 pontos percentuais. Em 12 meses, a elevação foi de 18,5 pontos percentuais. O patamar é superior ao praticado no mercado antes da implementação da modalidade do consignado para trabalhadores com carteira assinada, lançada pelo governo Lula em março do ano passado. Na época, a taxa média ficava ao redor de 40% ao ano.

A insatisfação de Lula com os juros cobrados na modalidade é antiga e, ao contrário das expectativas do governo, a taxa média segue subindo. No ano passado, o presidente chegou a pedir um diagnóstico do Ministério da Fazenda para baratear o custo do crédito.

“Nessa linha específica, se olhar de abril de 2025 para fevereiro de 2026, temos muito mais um cenário de novo patamar da taxa de juros do que uma trajetória de crescimento. Em abril de 2025 era 59,1% [ao ano] e agora passou para 59,4% [ao ano]”, afirmou o chefe do departamento de Estatísticas do Banco Central, Fernando Rocha, na apresentação dos dados.

As informações do BC mostraram também queda de 22,5% nas concessões de novos empréstimos para trabalhadores CLT em fevereiro em relação a janeiro, mês com três dias úteis a menos. Foram liberados R$ 7,15 bilhões para trabalhadores celetistas no consignado privado, contra R$ 9,22 bilhões no início de 2026.

Outra modalidade que registrou alta de juros em fevereiro foi a do rotativo do cartão de crédito, com taxa média de 435,9% ao ano cobrada pelos bancos de pessoas físicas. Houve um aumento de 11,4 pontos percentuais na variação mensal. Nesse segmento, são cerca de 40 milhões de clientes.

Como mostrou a Folha de S. Paulo, o governo quer mudanças para reduzir o custo do crédito rotativo. Na última quinta (26), Lula disse ter mandado o Ministério da Fazenda elaborar propostas.

Segundo Rocha, os altos juros cobrados no rotativo puxaram para cima a média das demais operações. Com isso, foi registrada em fevereiro a maior taxa média de juros cobrada em todas as modalidades do país desde o início da série histórica do BC, em março de 2011.

“Se a gente considerar pessoa física, pessoa jurídica, [crédito] livre, [crédito] direcionado, essa taxa [média de juros] atingiu 33% ao ano no mês de fevereiro e é a maior taxa de juros da série histórica do BC, com crescimento de 0,3 ponto percentual no mês e aumento de 2,6 pontos percentuais em 12 meses”, disse o técnico da autoridade monetária.

Lula teme impacto sobre sua popularidade em ano eleitoral diante do maior endividamento dos brasileiros. Para auxiliares do presidente, todo o aumento de renda da população está se esvaindo com as dívidas, alterando a percepção dos cidadãos com relação à redução do desemprego e ao controle da inflação e gerando mal-estar com o governo.

O comprometimento de renda (parcela do orçamento familiar destinado ao pagamento de dívidas e despesas fixas) subiu 0,1 ponto percentual no mês, alcançando 29,3% em janeiro. Esse é o maior patamar da série histórica do BC, iniciada também em março de 2011.

Segundo Rocha, as operações de crédito emergencial, em especial do rotativo do cartão de crédito, tiveram papel relevante no crescimento do comprometimento de renda da população brasileira.

O endividamento das famílias situou-se em 49,7% em janeiro (o dado é apresentado pelo BC com defasagem maior), permanecendo estável no mês e aumentando 1,1 ponto percentual em 12 meses.

No crédito com recursos livres, a inadimplência -pagamento em atraso há mais de 90 dias- subiu 0,2 ponto percentual em fevereiro e alcançou 5,5%, com aumentos equivalentes nas carteiras de pessoas físicas (6,9%) e de pessoas jurídicas (3,3%).

O crescimento da inadimplência no período recente, contudo, reflete em parte a mudança nas regras contábeis. Desde janeiro, as instituições financeiras não têm mais um prazo limite para classificar esse crédito como prejuízo, de forma que essa inadimplência pode ser pode ser computada por mais tempo.

No caso do consignado para trabalhadores do privado, a inadimplência saltou para 6,3% em fevereiro, ante 5,4% um mês antes. No rotativo do cartão de crédito, por outro lado, houve queda na inadimplência, de 62,5% em janeiro para 59,7% em fevereiro.

O rotativo é a linha de crédito mais cara do mercado, recomendada por especialistas apenas em casos emergenciais. Ele é acionado quando o cliente não paga o valor integral da fatura na data de vencimento.

Segundo especialistas, a escalada do calote entre os mais pobres pode ser explicada pela maior vulnerabilidade a juros altos daqueles que ganham menos, que em geral possuem menos poupança para amortecer choques.

Na semana passada, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou que as taxas de juros cobradas no rotativo do cartão de crédito são punitivas e defendeu uma discussão estrutural sobre a criação de alternativas mais adequadas aos brasileiros.

Desde janeiro de 2024, está em vigor a norma que estabelece que a dívida de quem atrasa o pagamento da fatura do cartão de crédito não pode superar o dobro do montante original. Isso significa que a taxa de juros é limitada a um teto de 100% do valor da dívida contraída. Esse modelo é conhecido no jargão econômico como “muro inglês”.

Questionado por jornalistas se a medida não se mostrou eficaz após dois anos de implementação, Galípolo disse que o “muro inglês cumpriu seu papel”, mas que “talvez a extensão dessa política precise ser ponderada”.

Na apresentação das estatísticas, Rocha ressaltou que cerca de metade de um total de 70 empresas que fornecem informações ao Banco Central sobre esse indicador “ou estão com taxa de juros, daqueles devedores maiores, travadas em 100% ou estão ali em 99%, mostrando a efetividade do muro inglês.”

Desde 2017, os bancos são obrigados a transferir a dívida do rotativo do cartão de crédito para o parcelado após 30 dias. De acordo com dados do BC, em fevereiro, a taxa média nessa modalidade subiu a 200,2% ao ano -alta de 5,3 pontos percentuais no mês. Esse foi o maior patamar desde abril de 2023.

O técnico do BC destacou ainda que, ao olhar o estoque, o ritmo de crescimento do crédito está em desaceleração em qualquer uma das métricas observadas pela autoridade monetária (pessoas físicas, pessoas jurídicas, crédito livre ou crédito direcionado).

CONCESSÕES EM QUEDA

As concessões a consumidores e empresas somaram R$ 699,8 bilhões em fevereiro, na série que considera os ajustes sazonais. Isso representou uma queda de 0,5% na comparação com janeiro, segundo os dados do Banco Central.

Para a economista Isabela Tavares, da Tendências Consultoria, a retração mostra que o avanço das taxas de juros para consumidores e o aumento da inadimplência vêm refreando o crédito.

O spread (diferença entre o custo que as instituições financeiras pagam para captar recursos e os juros cobrados na ponta) dos consumidores subiu mais do que os juros, diz ela. “Parte desse movimento reflete a piora da qualidade da carteira, com maior participação de modalidades emergenciais no último ano.”

A expectativa, segundo a economista da Tendências, é de nova elevação dos juros nos próximos meses, devido ao maior risco de crédito e ao aumento nos juros futuros.

“Mais à frente, no fim de 2026 e ao longo de 2027, a tendência é de melhora gradual das condições financeiras, com cortes na Selic [taxa básica de juros] reduzindo o custo de captação e avanços em renegociações e portabilidade aliviando a inadimplência.”

Em relatório, o Goldman Sachs apontou que acredita que o crédito enfrentará dificuldades nos próximos meses, como consequência das condições monetárias restritivas e da moderação no crescimento e na dinâmica do mercado de trabalho.

“Por outro lado, o ativismo de crédito por parte dos bancos públicos e as novas linhas de financiamento patrocinadas pelo governo federal e bancos públicos devem amortecer o ciclo de crédito”, afirmou o banco.

Juros do consignado privado atingem pico de 59,4% em fevereiro, mostra BC

Fonte: Gazeta Mercantil – Economia

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