Secretário do governo Tarcísio enxerga espaço para candidato de centro e diz que Flávio tem força; em livro de memórias que está lançando, ele lembra conversas com Silvio Santos e início de Kassab
SÃO PAULO, SP (CBS NEWS) – Guilherme Afif Domingos, 82, é secretário de Tarcísio de Freitas, foi assessor de Paulo Guedes, vice-governador de Geraldo Alckmin e ministro de Dilma Rousseff -cujo impeachment, que completa dez anos, ele diz ter lamentado.
A trajetória camaleônica, segundo ele, tem uma linha estável, a defesa dos pequenos empresários e da desburocratização, desde que se tornou diretor da Associação Comercial de São Paulo, há exatos 50 anos.
Deputado constituinte e um dos fundadores do PSD, ele está lançando “Juntos Chegaremos Lá” (editora Matrix, 152 pags, R$ 51), livro de memórias que tem como título o slogan de sua campanha na eleição presidencial de 1989, em que por um breve período foi a sensação.
Na obra, Afif relembra conversas políticas com o apresentador Silvio Santos, o nascimento do centrão nos anos 1980 e as primeiras campanhas eleitorais na companhia de um jovem (e nerd) Gilberto Kassab.
Para ele, o brasileiro é contra extremismos, o que abre a possibilidade de um candidato de centro na eleição. Afif vê Lula favorito pelo fato de ter a máquina na mão, mas considera Flávio Bolsonaro (PL) competitivo.
“O Lula tem um poder de manipulação da massa muito forte. E com a máquina na mão, não é para desprezar. Só que a máquina está fazendo fumaça. Há toda uma crise fiscal”, afirma.
O lançamento do livro ocorre nesta quarta-feira (25) a partir das 18h30, na Livraria da Travessa do Shopping Iguatemi, em São Paulo.
PERGUNTA – No livro, o sr. se define como um radical de centro. Existe espaço ainda para o centro no Brasil?
GUILHERME AFIF – A tendência do Brasil é centrista. O brasileiro não gosta de extremos. Em meados do século passado, você tinha pelo menos duas estruturas que sustentavam o centro. Uma era o PSD, partido do Juscelino. E o lado mais radical, a UDN, que era de direita, mas defendeu o monopólio da Petrobras. Era sempre o bipartidarismo no centro, não o pluripartidarismo extremo.
P – Mas hoje parece que não mais, né?
GA – Hoje está existindo uma radicalização. De um lado à direita, do outro à esquerda. E acho que tem um espaço aí no centro. Se vai ser preenchido ou não, só colocando o produto na prateleira.
P – O tamanho desse espaço dá para ter uma ideia?
GA – É só olhar 30% de um lado, 30% do outro, o resto não está nem com um, nem com o outro. Ele é expressivo.
P – Nesses 50 anos de vida pública, outra bandeira que o senhor levantou é a do liberalismo. Durante muito tempo, defendê-la no Brasil foi pregar no deserto. Hoje há um campo mais fértil?
GA – Eu sou liberal. Eu peguei uma vertente praticamente unânime, que era a defesa da democracia econômica, sem a qual a democracia política não subsistiria. Através do pequeno. O pequeno está no regime capitalista. Ele aplica os seus princípios e é vítima do centralismo de Estado, que está lá para beneficiar os que estão ao seu redor. O liberalismo que eu preguei é esse da democracia econômica, de ter um regime de mercado sem favorecimento, para que possa haver competitividade. Quando eu criei o Simples, era para poder dar competitividade para esse pequeno massacrado pela burocracia estatal, que até hoje nós não nos livramos.
P – Deu para impregnar um pouco do liberalismo no brasileiro nessas últimas décadas?
GA – Você hoje percebe um movimento importante. Quando eu criei o MEI [Microempreendedor Individual], era para dar formalização à economia informal. Hoje o MEI é a expressão daqueles que estão por conta própria, que eu chamo de batalhadores. Quem vai resolver essa eleição serão as mulheres, que são a boleira, a cabeleireira, a manicure, esse tipo de profissão que não é ideológica. O que ela quer é liberdade, crédito, pagar menos imposto. Não são bem bandeiras de esquerda.
P – O sr. participou da histórica campanha presidencial de 1989. O que chama mais atenção na comparação com hoje?
GA – Foi uma campanha de comunicação, não de máquina. Mesmo começando com 0,5%, tem espaço para o novo. Eu lia muita coisa de marketing, e uma que me chamou a atenção foi que falavam da [sandália] Melissa. Quem fez a Melissa foi a [empresa] Grendene, ou foi a Melissa que fez a Grendene? Quer dizer, o produto faz a fábrica, ou a fábrica faz o produto? A fábrica eram os grandes partidos, PMDB, PFL, cada um tinha os seus nomões. Eu falei, não vai ser. Vai ser produto. E vai ser de comunicação. Pensei, todos os produtos que estão aí são fora de especificação do mercado. Não é o que o consumidor quer.
P – Naquela campanha, em determinado momento, o sr. foi a sensação.
GA – Eu não era convidado no baile, era um outsider. Na hora que eu dei a crescida, o que que aconteceu? Eu comecei a crescer em cima do Collor. Nós éramos o mesmo perfil da renovação. Ele caiu de 43% para 28% e eu subi para 14%. E aí acendeu o sinal vermelho no sistema. O Afif chegou na classe média. E aí, tinha que tirar.
P – O sr. relata ter sido um dos primeiros a falar com Silvio Santos naquela eleição.
GA – Eu precisava ter um vice forte. Fui no Silvio Santos e disse a ele: “Vou te entregar meu programa, você leia. Se você se interessar, você me fala”. E, depois de uns 15 dias, voltamos a falar. O livro lá, tudo anotado, ele leu linha por linha. Perguntei: “Você topa? [ser vice]”. Ele respondeu: “Eu topo, [e perguntou] por que não ao contrário? Eu [Silvio] candidato a presidente e você [Afif] vice”. Eu falei “vou pensar”. E aí saí e não voltei mais.
P – Hoje o sr. está com um governador bolsonarista [Tarcísio], já foi vice de um ex-tucano que hoje é lulista [Geraldo Alckmin] e ministro de uma petista [Dilma Rousseff]. Alguns dizem que o sr. teve uma trajetória de camaleão.
GA – Tudo que nós conquistamos em 40 anos do movimento dos pequenos eu consegui por unanimidade. Tinha, inclusive, a posição do próprio Lula, concordando comigo, na Constituinte. Eu nunca tive obstáculos por onde passei, em função da coerência de uma linha de defesa dos pequenos, sem a qual democracia política não existe. Quem abriu a porta, quem meu filho beija minha boca adoça. Eu me dei muito bem com a Dilma.
P – O sr. fala no livro que lamenta o impeachment dela.
GA – Sim. Ela era uma mulher correta. Eu sou testemunha disso, não tenho medo de dizer.
P – Qual é o ponto mais forte do Lula e qual é a maior vulnerabilidade dele?
GA – O Lula tem um poder de manipulação da massa muito forte. Ele não tem razão para ter coerência. Ele pode ter uma opinião hoje, amanhã outra totalmente diferente, mas colocada de tal forma que as pessoas aplaudem. E com uma máquina na mão, não é para desprezar. Só que a máquina está fazendo fumaça. Há toda uma crise fiscal, é saber quando entra.
P – E o Flávio?
GA – Vou falar da franquia [Bolsonaro], que penetrou na população com o discurso pela tradição, família, tudo. Ele pega o conservador. Tem pontos muito positivos que foram negados o tempo todo. Falam que é herança maldita. Não. O Paulo Guedes fez um belíssimo trabalho, aguentou as contas, porque ele também foi levado para o mato, mas conseguiu manter o cavalo na trilha. Tem uma herança muito positiva que ele deixou e foi destruída agora, que é o desequilíbrio das contas.
P – O sr. vê o Lula como favorito?
GA – Vejo. Ele tem a máquina. Bolsonaro perdeu aquela eleição. Não foi o Lula que venceu. Ele [Bolsonaro] tinha a máquina na mão e fez muita besteira.
P – Flávio está tentando se colocar como um moderado, diferente do pai. Isso pode emplacar?
GA – Você tem um bolsonarismo fixo que está com ele. Falando besteira ou não falando besteira, está junto. Tem 20%, 21%, e tem que conquistar o dobro. E o Lula vai ter que conquistar outra parte com outro discurso. O da soberania é forte. Mas ele acabou se perdendo nos [Daniel] Vorcaro da vida.
P – Tarcísio deveria ter sido o candidato a presidente?
GA – Não. Ele vai ter um segundo mandato para completar a obra. Temos muita coisa para entregar numa segunda gestão. O Tarcísio não é de plantar couve, ele planta carvalho, não é para colher no seguinte. São projetos estruturais que ele está fazendo na mobilidade, no transporte, na mudança da sede para o centro, no Trem Intercidades. Ele tem que completar esse ciclo, que completa também a maturidade política dele.
P – E aí ele estaria pronto para 2030 para presidente?
GA – Sim, ele será um candidato a presidente muito real e que vai ser muito bem preparado. Esses quatro anos são de preparo para ser candidato.
P – A candidatura do Haddad ameaça a reeleição?
GA – Eleição e mineração, só depois da apuração. O Haddad, que sempre julgou a herança maldita do governo Bolsonaro, vai agora pagar o preço da herança maldita que ele está deixando. É só você ver o que aconteceu com o aumento de imposto. Isso vai pesar muito. O Haddad não terá o desempenho que teve na outra eleição.
P – O sr. conta no livro uma passagem curiosa da campanha de 89, o sr. e o Kassab viajando o país com ficha telefônica. Depois de décadas de convivência, como o sr. definiria o Kassab?
GA – O Kassab começou comigo. Eu era presidente da Associação Comercial e criei um grupo de jovens empresários. Ele me foi apresentado por um tio dele, que era meio contraparente do meu pai, e me falou que o sobrinho gostava de política. Isso em 1983. Chegou com óculos com fundo de garrafa, estilo nerd. Fomos trabalhando e ele mostrou gosto. Quando eu precisei montar o PL, em 1985, ele veio me ajudar. A eleição presidencial [de 1989] foi a formatura dele, passou estado por estado para conversar com as lideranças de então. Aí nunca mais parou.
RAIO-X | GUILHERME AFIF DOMINGOS, 82
É secretário especial de Projetos Estratégicos do Estado de São Paulo. Foi vice-governador (2011-14), ministro da Micro e Pequena Empresa (2013-15), presidente do Sebrae (2015-19), deputado federal Constituinte (1987-89). É formado em administração na Faculdade de Economia do Colégio São Luís.






