PEDRO S. TEIXEIRA
SÃO PAULO, SP (JORNAL DA TARDE) – O governo alterou o Pbia (Plano Brasileiro de Inteligência Artificial) e deverá comprar dois supercomputadores entre os dez mais potentes do mundo, um dos Estados Unidos e um da China, em vez de um único equipamento.
Os equipamentos custarão mais de R$ 2 bilhões, e as licitações devem ser publicadas nos próximos dias, disse a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, em entrevista à Folha nesta quarta-feira (12).
A máquina é vista como ponto-chave da estratégia brasileira para inteligência artificial e deve ser usada no desenvolvimento de tecnologia própria, como modelos de inteligência artificial nativamente brasileiros, do governo ou da iniciativa privada.
O anúncio vem na sequência de uma reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com cinco especialistas da área, incluindo Mat Velloso, ex-executivo brasileiro do Google que chamou a China de referência.
O presidente disse em entrevista coletiva nesta terça (11) que o Brasil não está pronto para disputar tecnologicamente nem com americanos, nem com chineses. Ele diz querer os dois países “conosco”.
O principal supercomputador terá potência instalada determinada por edital de 9,2 megawatts, o que colocaria o equipamento na sexta posição do ranking especializado Top500 e representaria um consumo elétrico equivalente ao de cerca de 45 mil casas. “Cada máquina fará vários quatrilhões de operações matemáticas por segundo”, disse a ministra.
As especificações do equipamento foram decididas pelo LNCC (Laboratório Nacional de Computação Científica), instalado em Petrópolis, no interior do Rio de Janeiro, que era o destino original do supercomputador.
Por questão da demanda elétrica, o governo desistiu de instalar o equipamento no laboratório, e o presidente Lula deve escolher entre três localidades: a capital fluminense, um ponto no Rio Grande do Norte ou a cidade paulista de Campinas.
“A nossa tendência é escolher um lugar no Sudeste e outro no Nordeste, em função do enfrentamento da desigualdade regional”, disse Santos. Lula deve bater o martelo sobre o local em uma reunião antes da publicação do edital.
“Isso vai ser decidido pelo Executivo porque [de outra forma] atrasaria a execução da compra e o tempo urge. Pesquisas sobre moléculas, por exemplo, demoram até cinco anos e poderemos reduzir isso para semanas com o supercomputador”, afirmou a ministra.
O edital de compra dos supercomputadores terá três fases em um desenho concentrado na construção da soberania digital brasileira. “Nós queremos diversificar a rota para não ficar dependendo exclusivamente de um determinado país”, disse a chefe da pasta da Ciência e Tecnologia.
A primeira rota será a aquisição de um equipamento entre os dez mais potentes do mundo, sem restrições. A ministra avalia que o fornecedor será a Nvidia, com sede nos EUA. A segunda envolverá uma encomenda tecnológica com países em desenvolvimento, sendo a China o único deles com condição de fornecer o equipamento.
A terceira será o investimento em um modelo de processadores desenvolvido coletivamente sob coordenação da organização Risc-V International, cuja sede fica na Suíça.
De acordo com a ministra, a discussão sobre a procura de fornecedores alternativos já estava em curso, mas foi consolidada durante a adesão do Brasil à Waico (Organização de Cooperação Mundial em Inteligência Artificial), uma entidade intergovernamental cuja criação foi anunciada em discurso do presidente chinês Xi Jinping no mês passado.
“É uma aliança estratégica. Nós fazemos cooperação internacional, e a soberania não é exclusão de transferência nem de cooperação. Muito pelo contrário, a gente só conseguirá soberania se a gente beber na fonte de quem tem tecnologias mais avançadas, mas sempre sob a ótica do interesse nacional”, afirmou Santos.
Para ela, a parceria, que une 29 países mais alinhados à China, é estratégica para o Brasil porque envolve nações em um estágio similar de desenvolvimento. “Podemos entender melhor a curva de aprendizagem da tecnologia. E quem domina a tecnologia muito mais na frente pode fazer um cerceamento da transferência.”
A ministra reconheceu que o governo terá de lidar com “incertezas e riscos” na compra dos supercomputadores. “Os Estados Unidos ameaçam cessar o fornecimento a quem fizer negócios nessas áreas mais críticas com a China.”
Ela pondera que as empresas americanas também têm o interesse de vender seus produtos para o Brasil, considerando que é uma compra de mais de R$ 1 bilhão. “Não sei até que ponto o que é proclamado vai acontecer na prática, porque se trata de um interesse objetivo.”
As máquinas, em conformidade com as diretrizes do Pbia, devem ser usadas no treinamento de grandes modelos de linguagem (como ChatGPT e Claude) brasileiros. O equipamento estará disponível para governos, universidades e empresas, em um modelo de acordos de cooperação similar ao do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).
“Hoje, o Sabiá, que é um modelo da empresa Maritaca.AI, é privado, mas o Soberania é do estado do Piauí e também está bastante avançado, é considerado um dos modelos mais potentes, exatamente porque reúne dados de governo”, afirmou Santos.
Os acordos também terão cláusulas de transferência tecnológica ligadas ao desenvolvimento de IA tanto em software (programas de computador) quanto em hardware (construção de peças).
Segundo a ministra, o governo já executou R$ 14,2 bilhões do orçamento de R$ 23 bilhões anunciados no lançamento em 2023 do Pbia, um plano feito em parceria com 117 instituições, somando universidades, empresas e entidades da sociedade civil.
O governo, diz a ministra, já entregou 20 computadores de alto desempenho da Intel a universidades e está adaptando cinco dos Centros Nacionais de Processamento de Alto Desempenho (Cenapad) ao trabalho com inteligência artificial.
O governo ainda investiu em uma atualização do Santos Dumont, instalado no LNCC, em Petrópolis, o atual supercomputador mais potente do país. “Ele estava entre os 500 melhores, e nós o colocamos no top 100 em função desse upgrade.”
Além do eixo de infraestrutura, o Pbia também indica desenvolvimento de regulação e governança para a tecnologia e investimentos em uso de IA no serviço público e no setor privado. A ministra diz, por exemplo, que 72 mil servidores já foram capacitados e 202 cursos superiores ligados à temática foram criados.
“O novo supercomputador do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a Jacy, foi um dos investimentos que fizemos e ajudou a desenvolver um algoritmo de inteligência artificial do Inpe. Logo depois, o governo anunciou na sexta passada recordes de controle de desmatamento, de redução de desmatamento nos seis biomas brasileiros”, afirmou Santos.









