NOVA YORK, EUA (JORNAL DA TARDE) – O ditador deposto da Venezuela, Nicolás Maduro, e Cilia Flores, sua esposa e ex-primeira-dama, declararam-se inocentes da acusação de conspiração para cometer tortura perante um tribunal de Manhattan, em Nova York, nesta quinta-feira (15).
Ele disse que o conjunto de alegações são falsas e que nega todas elas. Já ela disse ser “completamente inocente”. “Não sou culpada.”
A ação da dupla que liderou o regime chavista desde a morte de Hugo Chávez, em 2013, até janeiro de 2026, quando uma operação dos Estados Unidos os capturou em Caracas e transferiu para uma prisão de Nova York sob a acusação de narcoterrorismo, já era esperada.
Os promotores apresentaram a nova acusação de prática de tortura no último dia 8, na audiência em que o juiz do caso negou o pedido de Cilia para obter liberdade provisória devido à alegada deterioração de sua saúde no decorrer dos últimos oito meses na prisão.
A audiência desta quinta foi realizada para apresentar formalmente a acusação do Estado e ouvir os réus. De acordo com essa acusação adicional, o casal liderou um sistema de repressão que recorreu a práticas de choques elétricos, asfixia, simulações de afogamento, estupro, nudez forçada, fome, privação de sono, isolamento prolongado e ameaça de morte a familiares de prisioneiros políticos do regime. Entre os prisioneiros, não apenas cidadãos venezuelanos, como também americanos.
O alargamento da pressão judicial contra Maduro ocorre em paralelo ao abandono do apoio de seus aliados chavistas na Venezuela ao seu caso. A agenda pela liberdade do ditador e de Cilia já não faz parte da cartilha chavista e, aos poucos, antigos aliados seus têm tido a ficha criminal aliviada pelo governo de Donald Trump.
O caso mais recente foi o do presidente da Assembleia Legislativa, Jorge Rodríguez, que também é irmão da líder interina Delcy Rodriguez, a número 2 de Maduro que os EUA mantiveram no poder e cujo governo agora tutelam. Washington anunciou nesta quarta-feira (14) a suspensão de todas as sanções contra Jorge.
Pessoas com conhecimento no caso em Caracas dizem que um acordo também vem sendo costurado com Diosdado Cabello, ministro do Interior e responsável por coordenar os chamados “coletivos”, milícias de cidadãos armados criadas pelo chavismo.
Originalmente, Maduro e Flores são acusados de por mais de 25 anos abusarem de cargos públicos para enriquecer e se manter no poder por meio de corrupção, narcotráfico e graves violações de direitos humanos. A Justiça americana afirma que, por meio do Cartel de los Soles, a dupla e outros membros do alto círculo chavista traficavam drogas em colaboração com o Exército venezuelano. Eles atuariam, dizem os promotores, em conluio com organizações como as Farc, o ELN (Exército de Libertação Nacional) e o mexicano Cartel de Sinaloa.
Somadas, as penas dos crimes dos quais são acusados poderia chegar a 50 anos de prisão, na sentença mínima obrigatória, até prisão perpétua: 20 anos por narcoterrorismo; 20 anos por práticas de tortura; 10 anos por importar drogas para os EUA. Maduro tem 63 anos. Cilia tem 70, completados justamente nesta quinta-feira.
O abandono dessas figuras ocorre no mesmo momento em que se intensificam as negociações para uma transição democrática em Caracas, mesmo que em um modelo em grande medida criticado por lideranças como a Nobel da Paz María Corina Machado, que tem sido afastada do processo.
Nesta semana Dinorah Figuera, antiga deputada que estava no exílio devido à perseguição chavista e que foi reabilitada pelos EUA para liderar os diálogos de transição, esteve com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, em Washington.
Até aqui, já houve a reforma do Supremo venezuelano, que até dezembro vai eleger novos 32 juízes, em uma tentativa de se desfazer do domínio chavista na Corte; o restabelecimento do acesso a meios de comunicação antes bloqueados; a reforma na chamada Lei Contra o Ódio, que era usada para prender opositores; a liberação de mais de mil presos políticos; e o regresso à Venezuela de algumas lideranças que estavam exiladas, como a mão direita de María Corina, a jornalista Claudia Macero.








