Mulheres rompem barreiras e ganham espaço no saneamento
Durante muito tempo, trabalhar com instalações hidráulicas e outras atividades relacionadas ao saneamento foi visto como um caminho predominantemente masculino.
Essa realidade, porém, começa a mudar à medida que mais mulheres procuram capacitação e passam a enxergar no setor uma possibilidade de profissão, renda e independência.
A mudança aparece nas salas de aula. Em cursos de qualificação profissional voltados à área, a presença feminina tem crescido a ponto de, em algumas turmas, representar mais da metade dos alunos. O movimento foi observado pelo Programa Mãos e Obras, desenvolvido pela Águas do Rio em parceria com a Firjan.
A procura chamou a atenção da equipe responsável pela iniciativa e já levou à discussão sobre a criação de turmas exclusivas para mulheres. A ideia é ampliar o acesso à formação e acompanhar uma demanda que surgiu dos próprios territórios.
“A partir do nosso mapeamento socioeconômico nos territórios, por meio de pesquisas e de escuta ativa, observamos que o contingente de mulheres residindo nas áreas vulneráveis avaliadas é de quase 60%. Desse total, 32% delas são mães solo e estão em busca de oportunidade profissional. Cursos de capacitação como esses podem ajudar essas mulheres na manutenção das suas famílias e no crescimento de carreira”, afirma Tâmara Motta, gerente de Responsabilidade Social da Águas do Rio.
Na prática, a c apacitação representa para muitas alunas a possibilidade de experimentar uma área profissional que antes sequer fazia parte dos planos.
Foi o que aconteceu com Daiane Cipriano, de 34 anos, moradora de Manguinhos, na Zona Norte do Rio. Mãe de três filhos, ela conta que já havia tentado participar de cursos em sua comunidade, mas encontrava dificuldades por causa da idade.
“Geralmente, o candidato tem que ter menos de 30 anos. Fiquei surpresa quando me deram a ficha de inscrição mesmo após revelar minha idade. Foi uma felicidade enorme, um sonho realizado”, conta.
Daiane participou da formação em Qualificação Profissional em Instalador Hidráulico. Durante o curso, descobriu que os conhecimentos adquiridos poderiam ir muito além do ambiente de trabalho.
Descobri que saneamento não é apenas mexer com tubos. É um conhecimento amplo, que ajuda até dentro de casa. Hoje sei que plantei uma sementinha para colher mais à frente e acredito que posso construir uma carreira nessa área. É uma nova fase da minha vida Daiane Cipriano
A experiência também foi acompanhada de perto pelo pai, Divino do Nascimento, morador de Manguinhos há 25 anos. Para ele, a formação abriu uma perspectiva profissional que antes parecia distante para a filha.
“Saber que ela pode construir uma profissão em uma empresa consolidada e que faz um trabalho tão relevante para a nossa população nos enche de esperança”, conta emocionado.
Cristiane Lima
Aos 52 anos, Cristiane Lima também decidiu apostar em uma nova possibilidade profissional. Moradora da comunidade do Salgueiro, em São Gonçalo, ela encontrou na qualificação uma forma de buscar mais autonomia financeira e romper com a ideia de que determinadas funções não seriam para mulheres.
Temos que lutar, vencer, ser capacitadas, aprender, sair do nosso cotidiano e cuidar da nossa família, mas também sair para fazer cursos, trabalhar e ser mulheres vitoriosas na vida. Hoje em dia, temos oportunidades que não tínhamos antigamente. Temos que agarrar com unhas e dentes essas chances que vêm para as nossas vidas e não deixar escapar Cristiane Lima
Ao todo, 74 moradores de comunidades da Maré, Manguinhos e Salgueiro concluíram as formações oferecidas pelo programa em julho. Entre eles, 32 eram mulheres.
Segundo Tâmara, a presença feminina nas capacitações mostra que existe interesse em ocupar novos espaços dentro do segmento.
“A estratégia do programa também passa por identificar a interseccionalidade dentro dos territórios, e é visível a presença das mulheres na busca por novas oportunidades, principalmente as que são mães solo. Mais do que aprender técnicas de instalações hidrossanitárias e bombeiro hidráulico, essas mulheres descobriram uma nova possibilidade de carreira em um segmento em plena expansão.”, comenta.
O resultado já começa a influenciar os próximos passos da iniciativa. A expectativa é ampliar a participação feminina e criar novas oportunidades de formação.
“Esse resultado de impacto social nos motivou a estudar a criação de novas turmas voltadas exclusivamente para elas, essa transformação será ampliada”, adianta.






