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Posição de Milei em relação a Lula é minoritária na Argentina, diz deputado

Alisson Sakamoto by Alisson Sakamoto
setembro 1, 2026
in MUNDO
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BUENOS AIRES, ARGENTINA (JORNAL DA TARDE) – As falas que o presidente da Argentina, Javier Milei, endereçou a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no último mês são rejeitadas pela maioria do mundo político, afirma Nicolás Massot, deputado pela província de Buenos Aires. Para demonstrar isso, ele lidera uma delegação pluripartidária que embarca rumo a Brasília nesta terça-feira (1º) para reuniões com autoridades brasileiras.

Os compromissos devem se concentrar na quarta (2), quando o grupo tem previsto um encontro com o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, no Palácio do Planalto, e uma reunião com senadores, incluindo Nelsinho Trad (PSD-MS), presidente da Comissão de Relações Exteriores da Casa. A agenda, diz Massot, envolve também uma reunião no Itamaraty que, segundo uma funcionária da pasta, ainda precisar ser confirmada.

“Iremos a Brasília para deixar bem claro que uma grande maioria da representação política da Argentina discorda totalmente dessa situação e repudia as declarações de Milei”, afirmou Massot à Folha de S.Paulo de seu escritório em Buenos Aires. “Buscamos, com esta visita, um desagravo ao povo e ao governo brasileiro e uma ratificação do caráter estratégico e transcendental que a relação com o Brasil tem para a grande maioria dos argentinos.”

Massot, que tem participado dos esforços para construir uma alternativa à direita de Milei e à esquerda de Cristina Kirchner nas eleições presidenciais na Argentina no ano que vem, vai levar a Brasília um grupo de dez parlamentares de diferentes correntes ideológicas, principalmente de centro e de esquerda.

Membro do Grupo Parlamentar de Amizade com o Brasil e ex-integrante da Comissão de Relações Exteriores do Congresso argentino, o político foi um crítico de primeira hora dos ataques do presidente argentino a Lula durante o lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), no final de julho.

Na ocasião, o ultraliberal chamou o homólogo de ladrão, presidiário e “lixo socialista”, além de classificar o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes de “lixo careca”. As falas desencadearam uma crise entre os dois países sem precedentes nos últimos 40 anos.

Esses ataques iniciais levaram à convocação do embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, e do representante de Brasília em Buenos Aires, Julio Bitelli, para prestar esclarecimentos. Os que se estenderam pelas semanas seguintes fizeram o governo Lula dispensar Raimondi e manter Bitelli no Brasil, rebaixando de forma inédita as relações com o país vizinho.

Tentar restabelecer os embaixadores em suas respectivas posições seria “o mais urgente e o mais importante” agora, afirma Massot. Na prática, porém, é improvável que o retorno à normalidade ocorra antes das eleições de outubro.

Após a crise, Milei diminuiu consideravelmente suas atividades políticas e ficou 24 dias sem ir à Casa Rosada -o que colaborou para que as agressões cessassem. Há dez dias, porém, o presidente argentino voltou a falar sobre Lula durante uma entrevista à rádio Mitre a respeito de seu ex-assessor, Fernando Cerimedo, preso por supostamente ter planejado a tentativa de assassinato da companheira.

“Essa pessoa [Cerimedo] não faz parte do nosso grupo e não tem nenhuma ligação conosco. Rompemos relações com ela em 2023. Não vamos descartar a possibilidade de que por trás disso esteja toda a quadrilha de Pagano, Bindi, Evo Morales, Castro-Chavismo, Lula [da Silva]”, afirmou ele, antes de acusar o governo brasileiro de “interferir nos processos eleitorais em toda a região” e repetir, sem provas, que o Brasil estaria por trás de uma “campanha anti-Argentina”.

Para Massot, a crise significa perda de oportunidades.

“Há um contexto internacional de preços muito favoráveis para o agronegócio”, afirma, sobre a possibilidade de acordos comerciais para o Mercosul. “Infelizmente, essa situação diplomática anormal, esse conflito autoinfligido por Milei, acaba adiando as coisas. A verdade é que a Argentina e o Brasil deveriam estar coordenando muito mais ações para a projeção do comércio internacional hoje em dia.”

O trabalho do Congresso em relação ao Brasil, segundo ele, está parado por falta de uma “visão estratégica comum”. “Pensemos na situação contrária: todo o impacto positivo que seria gerado por um esforço para superar as diferenças ideológicas que possam existir, e que são bem-vindas, tendo em vista a importância que os dois países têm um para o outro”, afirma.

Nessa falta de coordenação, segundo ele, quem sai perdendo é principalmente a Argentina. “Por mais difícil que seja aceitar, é verdade: trata-se de uma relação que se desequilibrou ao longo do tempo devido a fatores demográficos e econômicos, e hoje o peso regional do Brasil é muito maior que o da Argentina”, afirma ele.

“Se o presidente argentino tiver que fazer algum esforço para ter um relacionamento melhor e mais frutífero com alguém que pensa diferente dele, o primeiro que ele teria que escolher é o presidente do Brasil”, completa.

Os ataques, além de tudo, seriam gratuitos no seu ponto de vista, já que há ao menos dois episódios em que toda a Argentina deveria estar “agradecida ao Estado do Brasil”.

O primeiro seria o da crise energética do início de 2024, quando Buenos Aires recorreu ao gás da Petrobras para suprir a alta demanda pela commodity devido às temperaturas mais baixas do que o usual. O segundo, quando o Brasil assumiu a representação diplomática da embaixada da Argentina em Caracas diante de ameaças da ditadura da Venezuela de expulsar a equipe diplomática de Milei no país.

“Não há mais espaço para continuarmos com isso, independentemente de quem vencer no Brasil”, diz o deputado argentino sobre o pleito de outubro.

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