Marvvila
Marvvila volta ao Rock in Rio neste domingo (13) disposta a conquistar até quem ainda passa longe de uma roda de pagode. A cantora sobe ao Espaço Favela às 15h e prepara um show dividido em atos, com espaço para romance, sofrimento, celebração e músicas que contam mais da própria história.
A apresentação marca uma volta diferente à Cidade do Rock. Quando estreou no festival, em 2022, Marvvila ainda tinha um repertório autoral menor e nem havia passado pelo BBB. Quatro anos depois, ela chega com novos projetos, mais músicas conhecidas pelo público e uma meta bastante clara: “Vou mostrar muito mais de mim, da minha vulnerabilidade, do que eu sinto”.
Em entrevista ao iG, conduzida pelo repórter Pedro Emerenciano, Marvvila falou sobre o Rock in Rio, as barreiras que encontrou no pagode, a passagem pelo BBB, a relação com Péricles e os próximos passos da carreira. A conversa completa está disponível abaixo, no YouTube.
Um show para converter quem ainda não é do pagode
Marvvila não quer apenas apresentar um repertório no Rock in Rio. Ela diz ter pensado o show como uma experiência que muda de clima ao longo da apresentação.
“Vai ter aquele momento de dar emoção, mas também aquele momento de se alegrar, aquele momento de empoderar, aquele momento de se sentir feliz”, contou.
A intenção é criar proximidade mesmo em um festival onde parte do público pode chegar ao Espaço Favela sem acompanhar seu trabalho ou o próprio pagode.
É justamente esse público que ela quer fisgar.
Eu quero fazer as pessoas que não são pagodeiras saírem de lá falando: ‘Caraca, aquela menina ali me fez virar pagodeira. Eu nem gostava, mas por causa dela, ela me emocionou’.
A segunda passagem pelo festival também permite uma apresentação mais autoral. Marvvila lembra que, em 2022, ainda tinha poucas músicas próprias para encaixar no repertório.
Agora, a situação mudou.
Marvvila
“Eu tinha uma parte de mim ali. Uma parte da trajetória, era o começo. Poucas músicas autorais foram cantadas. E agora eu vou poder fazer boa parte do show de músicas autorais.”
Para ela, isso aumenta a possibilidade de conexão com quem estiver diante do palco.
Minhas músicas são coisas que eu vivi, que eu já passei. Então é muito da minha verdade.
Uma das faixas que já funciona como termômetro dos shows é “Nike e Shortinho”, gravada com Ayla e Mannda Lym. A música conta, com humor, a história de uma mulher que resolveu dar moral para um homem feio e se arrependeu.
Marvvila ri ao explicar que há uma diferença importante.
“A gente não fala do cara feio gente boa. É aquele feio que se acha.”
A recepção da música também chamou a atenção da cantora por outro motivo. A faixa nasceu de uma narrativa feminina e foi abraçada pelas mulheres, mas não ficou restrita a elas.
Poder ver uma narrativa feminina tomando força, tendo protagonismo, é muito legal.
“Era só o celular e um sonho”
O caminho até um palco do Rock in Rio começou bem longe de festivais.
Marvvila canta desde os cinco anos, ainda na igreja. Na época, era Cássia e crescia em uma família cristã rígida, onde ouvir outros gêneros musicais não era algo simples.
O contato com o pagode ganhou força na adolescência. Nas aulas de música da escola, colegas apareciam com instrumentos de percussão e cavaco. Faltava alguém para cantar.
Ela assumiu o posto.
Antes de seguir profissionalmente pelo gênero, ainda gravou um CD gospel. A produção foi paga pela própria família, com dificuldade, em uma pequena gravadora em Madureira, no Rio de Janeiro.
Era o sonho da família. Eu me via como quem tinha que realizar esse sonho de ser a cantora gospel da família.
Em 2016, veio o The Voice Brasil. Foi o primeiro grande palco e também um empurrão para que começasse a questionar qual carreira realmente queria construir.
Marvvila chegou a encontrar oportunidades no gospel depois do programa, mas decidiu não seguir.
“Decidi seguir meu sonho e ir atrás do que de fato me emociona.”
O pagode, porém, ainda não parecia uma escolha fácil.
Sem dinheiro para estúdio, estrutura ou produção sofisticada, Marvvila começou a gravar vídeos com o cavaquinista Alisson Olímpio, que hoje faz parte de sua banda.
O esquema dependia do que estivesse disponível.
“Quem tinha um celular melhor, a gente gravava.”
Também faltava cenário. Marvvila conta que ela e Alisson procuravam amigos e perguntavam se poderiam usar suas casas para os vídeos.
Nem isso a gente tinha. Era só o celular e um sonho.
Os vídeos começaram a circular no Facebook e, depois, nos status do WhatsApp. Vieram compartilhamentos, mensagens e gente abordando Marvvila na rua.
“Você é a menina dos vídeos com cavaco”, ouvia.
A aposta caseira começava a sair da tela do celular.
“Falavam que pagode não era mais para mulher”
O crescimento dos vídeos não eliminou uma barreira que acompanhou Marvvila durante o início da carreira.
Segundo ela, pessoas do próprio pagode diziam que seria melhor procurar outro caminho.
Falavam: ‘É legal você cantar pagode, mas você está nova, você é bonita, você tem que achar algo que vai dar certo porque as pessoas não escutam mais mulher cantando pagode’.
A recomendação mexeu com ela. Marvvila tinha deixado o gospel justamente para cantar de uma maneira que considerava mais próxima da própria identidade. De repente, ouvia que também não deveria insistir no gênero que havia escolhido.
“Eu saí do gospel porque queria cantar a minha verdade e agora vou ter que procurar outra coisa porque eu não posso fazer o que de fato me faz feliz?”

Marvvila
Por um período, tentou deixar o pagode de lado.
Não funcionou.
A cantora também rejeita a leitura de que não existiam mulheres fazendo pagode naquele período. Para ela, o problema era outro.
Não é que não tinha mulher fazendo pagode. A diferença é que ninguém estava querendo ouvir.
Marvvila diz que artistas mulheres precisavam trabalhar muito mais para conquistar a mesma atenção que surgia de forma mais rápida para homens do gênero.
Foi depois desse conflito que resolveu parar de tentar caber em outro lugar.
“Eu falei: ‘É isso que eu vou fazer. Vamos ver no que vai dar’.”
A música autoral mudou a percepção
Marvvila aponta a gravação do primeiro audiovisual, em 2021, como uma virada.
Ela já era conhecida pelos vídeos, mas ainda buscava consolidar a própria obra. O projeto reuniu artistas que já ocupavam um lugar importante no pagode, como Belo, Sorriso Maroto e Xande de Pilares.
Também havia gente que tinha estendido a mão antes.
Um desses nomes foi Anderson Leonardo, do Molejo, morto em 2024. Marvvila lembra que o cantor abriu espaço para ela quando sua carreira ainda estava muito ligada aos vídeos publicados na internet.
Ele me deu oportunidade de cantar, me deu muito conselho. Foi um ser de luz na minha vida.
Quando os eventos começaram a voltar depois das restrições da pandemia, veio outra mudança.
Marvvila subiu ao palco e ouviu uma multidão cantando uma música dela.
Não era um clássico de outro artista. Não era um cover que havia viralizado no celular.
Era sua própria música.
“Ali eu falei: ‘Caramba, as pessoas não estão cantando comigo um pagode conhecido de outro artista. É o meu pagode. É a minha música autoral’.”
A conclusão veio na mesma hora.
“Agora a parada ficou séria.”
BBB abriu portas fora da bolha do pagode
Quando recebeu o convite para o BBB 23, Marvvila já tinha conquistado espaço no gênero. Ainda assim, viu no programa outra possibilidade.

Marvvila
O reality poderia apresentá-la a quem provavelmente nunca procuraria por uma cantora de pagode.
“As pessoas não iam conhecer minha arte diretamente no BBB, mas indiretamente iam conhecer. Primeiro iam conhecer a minha pessoa, iam gravar a minha cara, e isso poderia levar até a minha arte.”
Ela diz que o efeito apareceu depois do programa.
E não apenas no Brasil.
Em Angola, Marvvila encontrou um público que já sabia quem ela era. Muita gente havia acompanhado o BBB.
Quando eu cheguei lá, vi a galera me recepcionando, gritando, pedindo minhas músicas. Eu falei: ‘Caraca, como assim?’
A resposta estava no reality.
“Aí eles falaram: ‘A gente assistiu você no BBB’.”
Para Marvvila, a viagem ajudou a dimensionar como a exposição do programa havia ampliado seu alcance.
“Poder ver minha arte indo tão longe assim é gratificante.”
Ela também coloca essa conquista em uma perspectiva pessoal.
“Hoje poder ser referência como uma mulher preta que resistiu, que conseguiu, que saiu de baixo, que venceu, é muito legal.”
Péricles e uma ficha que Marvvila não quer que caia
Mesmo depois de dividir gravações e palcos com artistas que admirava antes da fama, Marvvila diz que ainda não se acostumou.
E nem quer.
Ao falar de encontros recentes com Sorriso Maroto e Péricles, ela admite que o nervosismo permanece.
Eu estava passando mal, literalmente passando mal de nervoso, porque eu não consigo normalizar estar ali no meio dessas divindades.
A sensação, segundo ela, é parecida com a do começo da carreira.
“A ficha nunca vai cair. E eu prefiro que não caia.”
Péricles ocupa um lugar especial nessa trajetória.
Marvvila o chama de maior ídolo e diz que o cantor teve um papel que ultrapassou uma simples parceria musical.
“Ele realmente transformou a minha carreira.”
O convite para gravar com Péricles veio acompanhado de apoio fora do estúdio. Segundo Marvvila, o cantor passou a falar sobre ela em programas, levou a artista para aparições e manteve o apoio durante sua participação no BBB.
“Ele me abraçou como filha mesmo.”
Marvvila diz que a música que gravaram juntos ultrapassou 200 milhões de reproduções somadas nas plataformas.
Mas existe uma cena mais simples que ainda mexe com ela: ouvir Péricles cantar músicas suas.
“Ele sabe minhas músicas. Para mim, isso não é normal.”
Nem a convivência mudou isso.
Eu já cantei com ele no show dele e ele cantar as minhas músicas… isso para mim não dá para ser normalizado.
“Até quando é para sofrer, eu sou exagerada”
Com mais repertório e estrada, Marvvila acredita ter encontrado também uma assinatura própria.

Marvvila
Ela define os shows pela intensidade.
O amor aparece grande. A dor também.
“Até quando é para sofrer, eu sou exagerada.”
O mesmo vale para as músicas românticas.
“Quando é para falar de um amor bom, também é aquele amor, meu Deus, genuíno, puro. É tudo muito intenso. Acho que isso é a minha marca.”
Essa característica aparece nos projetos mais recentes, entre eles “Só Vvamo na Ilha”, novo capítulo de uma série que começou como DVD e depois cresceu para outros formatos e eventos.
A cantora também lançou “Recente Demais”, parceria com o Kamisa 10, e diz que ainda há material para chegar ao público.
Tem mais lançamentos por vir, tem mais projetos para serem gravados esse ano, tem mais eventos para serem anunciados.
Por enquanto, porém, o palco mais próximo é o do Rock in Rio.
E, dez anos depois daquela primeira grande exposição no The Voice, Marvvila parece chegar ao festival em um momento no qual já não precisa procurar qual música ou qual espaço poderia aceitá-la.
No fim da entrevista, ela foi convidada a pensar no que diria para a menina que pisou naquele palco em 2016.
A resposta veio rápida.
“Menina, confia mais em você. Não fique tão nervosa. Só faz a sua parte. Se emociona, brilha, que sua hora vai chegar.”
E completou:
“Calma, coração. Você vai conseguir.”





