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Crianças de 5 a 9 anos lideram alta de internações por saúde mental em SP

Redação by Redação
março 17, 2026
in BRASIL
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Dados mostram alta expressiva de internações e atendimentos por transtornos mentais entre crianças e adolescentes em São Paulo; especialistas apontam impacto da pandemia, mudanças sociais e falta de estrutura na rede pública como fatores centrais

As internações por transtornos mentais e comportamentais entre crianças e adolescentes foram as que mais cresceram no estado de São Paulo entre 2020 e 2025. A faixa etária de 5 a 9 anos registrou o maior aumento percentual de internações entre todas as idades, com alta de 98,3%. Em seguida aparecem os adolescentes de 10 a 14 anos, cujo crescimento foi de 78,1%.

No mesmo período, crianças de 5 a 9 anos concentram a maior parte dos procedimentos clínicos ambulatoriais por transtornos mentais e comportamentais entre todas as demais idades. Também foi essa faixa etária que apresentou o maior aumento absoluto, com crescimento de 775,6 mil atendimentos em cinco anos.

Esses procedimentos incluem consultas, exames e tratamentos para uma ampla gama de transtornos mentais e comportamentais que vão desde quadros orgânicos e problemas relacionados ao uso de substâncias até condições como esquizofrenia, transtornos de humor e do desenvolvimento. Os dados são da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e têm como base registros do Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (Sistema Único de Saúde).

Para Karina Diniz, professora do departamento de psiquiatria da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o diagnóstico precoce tem sido cada vez mais frequente entre crianças, especialmente em transtornos do neurodesenvolvimento, como autismo e deficiência intelectual.

No caso das crianças de 5 a 9 anos, que lideram a alta de internações e o volume de atendimentos por transtornos mentais, o aumento pode estar relacionado ao início da vida escolar. É nesse período que dificuldades de aprendizagem, comportamento e socialização passam a ficar mais evidentes.

Já entre 10 e 14 anos, o crescimento dos atendimentos ambulatoriais pode ser explicado por diagnósticos tardios de transtornos do neurodesenvolvimento e o surgimento de novos quadros clínicos, como depressão e ansiedade, explica Diniz.

A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo afirma que o primeiro acesso a atendimento psicológico pelo SUS acontece na Atenção Básica, principalmente nas UBSs (unidades básicas de saúde) e na Raps (Rede de Atenção Psicossocial), que são administradas pelos municípios, “cabendo ao Estado o apoio e fortalecimento à Rede”.

“É importante ressaltar que os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) podem ser procurados para avaliação e acompanhamento, quando necessário”, diz a pasta em nota.

Nos casos em que o quadro exige tratamento hospitalar mais complexo, o encaminhamento é feito pelo serviço de saúde onde o paciente já está sendo atendido. A definição do hospital de referência depende da gravidade do caso e das necessidades clínicas do paciente.

Segundo Elson Miranda de Azevedo, diretor técnico do Caism (Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental) da Vila Mariana e docente da EPM/Unifesp (Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo), o aumento já vinha sendo observado antes da pandemia da Covid-19 entre os profissionais de saúde.

“Os jovens são mais vulneráveis a mudanças sociais. A gente já observava esse aumento antes da pandemia, mas tudo indica que o período pós-pandemia intensificou o sofrimento psíquico na infância e na adolescência”, diz.

Azevedo explica que a quebra de rotinas e as mudanças no funcionamento social tiveram impacto importante no desenvolvimento emocional, especialmente entre crianças e adolescentes, que ainda estão formando sua estrutura mental.

Transformações sociais também ajudam a explicar o cenário. Há algumas décadas, diz Azevedo, a estrutura social e familiar possibilitava mais conexões e interações, que são recursos de prevenção em saúde mental, do que a organização atual. Outro ponto que vem sendo investigado é o impacto das mudanças tecnológicas.

“A exposição a telas e redes sociais já é problemática para adultos, mas na infância e adolescência o impacto disso pode ser avassalador. Uma das consequências pode ser, por exemplo, a baixa tolerância à frustração”, afirma.

Na maioria das faixas etárias, tanto os números totais quanto o crescimento foram maiores entre meninos. Azevedo afirma que, embora a depressão seja mais frequente em mulheres, muitos transtornos mentais aparecem com maior frequência na população masculina.

“As mulheres tendem a enfrentar menos barreiras para buscar ajuda. Entre meninos, ainda existe mais estigma em relação ao cuidado em saúde mental”, diz.

Azevedo afirma que, na infância e na adolescência, meninos também podem apresentar comportamentos mais disruptivos, o que aumenta a chance de intervenções emergenciais. A internação psiquiátrica, diz, costuma ser indicada apenas em situações graves, quando há risco de a pessoa causar danos irreparáveis a si mesma ou a outros.

Ambos os especialistas concordam que o Brasil vive uma desassistência na prevenção e promoção de saúde mental, o que poderia evitar o aumento de situações emergenciais, que deveriam ser tidas como o último recurso.

“É preciso ampliar os recursos públicos e investir em equipes multidisciplinares para reduzir os impactos enfrentados por crianças diagnosticadas cada vez mais cedo. Também são necessários mais ambulatórios especializados, capazes de prevenir e oferecer cuidado adequado a esses adolescentes”, diz Diniz.

Segundo ela, o tempo de espera para o atendimento especializado pode ser muito longo, e que nessa faixa etária a intervenção precoce pode ser importante para a melhora do prognóstico. “O que a gente vê é um sucateamento da saúde mental.”

Azevedo afirma que o desafio vai além do sistema de saúde e envolve fatores sociais mais amplos. “O que estamos construindo para as nossas crianças? Que futuro elas estão vislumbrando? Será que, como sociedade, estamos oferecendo sentido, propósito e pertencimento?”, questiona.

Apesar das preocupações, Azevedo vê um aspecto positivo no aumento dos atendimentos ambulatoriais. “Isso também indica que a Secretaria de Saúde tem ampliado o acesso ao cuidado especializado, permitindo diagnóstico e tratamento mais precoces”, diz.

Sobre a possibilidade de hiperdiagnósticos ou de medicalização excessiva da infância, o médico afirma que, nos casos mais graves como aqueles que levam à internação, dificilmente se trata de exagero diagnóstico.

“Pode haver discussão sobre mudanças no entendimento de alguns transtornos, mas o problema maior ainda é o número de crianças e adolescentes com sofrimento psíquico que não conseguem acesso a tratamento adequado”, afirma.

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