SÃO PAULO, SP (JORNAL DA TARDE) – O dólar fechou em forte alta de 0,89% nesta quarta-feira (1º), cotado a R$ 5,209, na esteira do anúncio de sanções dos Estados Unidos a suspeitos de envolvimento com o PCC (Primeiro Comando da Capital).
A moeda já apresentava ganhos desde o começo da sessão, em meio a apostas de juros mais altos pelo Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano), e acelerou após o anúncio, atingindo o pico de R$ 5,217 por volta das 12h20.
As curvas de juros futuros também acentuaram alta, e a Bolsa, acompanhando as temperaturas mornas de Wall Street, fechou em leve queda de 0,19%, a 171.688 pontos.
O governo Donald Trump anunciou sanções contra dois brasileiros, três empresas sediadas em São Paulo e uma empresa portuguesa suspeitas de integrar um esquema de lavagem de dinheiro para o PCC -considerada pela administração republicana como a “maior organização criminosa do Ocidente”.
A notícia “afetou o dólar e tudo foi junto”, diz Andrea Damico, economista-chefe da Buysidebrazil.
Como em maio, quando o PCC e o CV foram classificados como organizações terroristas pelos EUA, o anúncio aumentou a percepção de risco sobre ativos do país, segundo alguns analistas.
Outros, porém, divergem dos efeitos imediatos para o câmbio e a Bolsa. Na visão de Gustavo Okuyama, gestor de renda fixa da Porto Asset, as sanções “podem gerar ruído se aparecerem nomes relevantes envolvidos”.
Já Márcio Riauba, chefe da mesa de operações da StoneX Banco de Câmbio, avalia que a notícia não parece ser um gatilho relevante para sustentar a alta do dólar ante o real ou adicionar estresse ao mercado.
“Mas pode ser um fator marginalmente negativo para o sentimento em relação ao Brasil. A sanção a empresas específicas ligadas a investigações criminais não altera diretamente os vetores como câmbio e DI (Depósitos Interfinanceiros, os juros futuros). Portanto, sozinha, dificilmente justificaria uma disparada do dólar”, afirma.
“O que faria algo neste sentido, de disparada da moeda americana, poderia ser sanções secundárias atingindo bancos ou instituições financeiras, restrições a empresas grandes com acesso ao sistema financeiro americano ou até conflitos diplomáticos entre Brasília e Washington, incluindo ameaças comerciais ou tarifárias.”
A moeda norte-americana atingiu o pico de R$ 5,217 logo depois das primeiras publicações sobre as sanções, e as curvas de juros futuros acentuaram alta e se mantiveram em valorização firme ao longo do dia.
No fim da tarde, a taxa do DI para janeiro de 2029 estava em 14,23%, em alta de 0,16 ponto percentual ante a sessão anterior. Na ponta longa da curva a termo, a taxa do DI para janeiro de 2035 estava em 14,33%, também em elevação de 0,16 ponto.
Analistas também apontam a nova pesquisa eleitoral no Brasil como fator de pressão para os ativos. Levantamento Atlas/Bloomberg mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com vantagem sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa pelo Planalto.
Lula tem 48,8% das intenções de voto no segundo turno, contra 42,3% de Flávio. Em abril, ambos estavam empatados com 48%. A margem de erro é de 1 ponto percentual para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
De modo geral, Lula ainda é visto com desconfiança por boa parte do mercado, que vê em sua reeleição um empecilho para o controle das contas públicas e, consequentemente, da inflação, forçando a manutenção da Selic em patamares elevados.
Apesar dos receios, nas últimas semanas os investidores seguem se posicionando para um novo corte da taxa.
No exterior, o foco esteve voltado às falas de Kevin Warsh, novo presidente do Fed, durante o fórum anual de política monetária do BCE (Banco Central Europeu) em Sintra, Portugal.
Ele afirmou os riscos à inflação diminuíram, mas reforçou a postura combativa do Fed em relação aos preços. “Se houver pessoas entre as famílias, no setor empresarial ou nos mercados financeiros que pensaram que este banco central ficaria à vontade com uma meta de inflação acima de 2% -bem, acho que ficarão decepcionadas: vamos garantir a estabilidade de preços nos EUA.”
Investidores voltaram a apostar na alta de juros após a reunião passada. Ainda que eles tenham sido mantidos na faixa de 3,5% e 3,75% ao ano, como amplamente esperado, o mercado interpretou a comunicação dos dirigentes e as expectativas deles para o próximo semestre como “hawkish”, isto é, agressiva no combate à inflação.
Soma-se a isso o relatório de emprego ADP, divulgado nesta manhã. Foram criados 98 mil postos de trabalho no setor privado dos EUA em junho, abaixo dos 118 mil esperados. O dado menor que a expectativa é uma boa notícia: com um mercado de trabalho menos aquecido, o consumo dos americanos tende a diminuir, reduzindo a pressão potencial sobre a inflação.
Mas a notícia não foi o suficiente para reverter o diagnóstico dos investidores. O indicador da ADP tem se mostrado pouco preciso para estimar o número de empregos no setor privado norte-americano, e o mercado agora aguarda o payroll, previsto para quinta-feira (2).
Por ora, prevalece o cenário-base anterior. “A combinação de um mercado de trabalho apertado e uma inflação resiliente alterou drasticamente as projeções, que agora mostram forte expectativa de novo aumento de juros pelo Fed”, diz Rebecca Nossig, analista de investimentos da Nomad.
Ela explica que, quando há a expectativa de alta nos Fed Funds, os títulos públicos dos EUA (treasuries), considerados um porto seguro do sistema financeiro global, passam a oferecer rendimentos maiores.
“Isso afeta negativamente os mercados emergentes, pois a expectativa de juros mais altos pelo Fed reduz drasticamente a entrada de fluxo estrangeiro para a Bolsa brasileira. Os grandes fundos internacionais preferem retirar seu capital de ativos de risco, como as ações do Ibovespa, e alocá-los na segurança e na rentabilidade garantida da renda fixa americana, o que explica a disparada do dólar frente ao real e a redução de liquidez no nosso mercado acionário.”
Segundo dados da ferramenta CME Fed Watch, 60% dos operadores agora esperam que o Fed suba a taxa no encontro de setembro. O dólar, em resposta, se valorizou globalmente, com o índice DXY, que o compara a uma cesta de seis moedas fortes, subindo 0,2%, a 101,38 pontos.








