Gustavo Mendes
Gustavo Mendes está vivendo uma nova fase da carreira. Aos 37 anos, o humorista voltou aos palcos após um período afastado para cuidar da saúde mental e afirma que aprendeu a estabelecer limites para não repetir os excessos do passado.
Conhecido nacionalmente por sua interpretação da ex-presidente Dilma Rousseff, ele também mudou a forma de encarar a personagem que marcou sua trajetória e hoje diz ter orgulho de um trabalho que, por muito tempo, temeu que limitasse sua imagem artística.
Em entrevista exclusiva ao iG Gente, o comediante relembrou os desafios de alcançar a fama ainda muito jovem, falou sobre as transformações no mercado do humor e contou o que deseja realizar nos próximos anos.
Entre os planos estão o sonho de comandar um programa de televisão, participar de uma novela do começo ao fim e investir ainda mais no cinema.
“Eu não me permito mais chegar a outro burnout”, afirma Gustavo ao falar sobre a mudança na relação com o trabalho. De acordo com ele, a pausa foi necessária para reorganizar a vida pessoal e profissional antes de retornar à rotina de apresentações e gravações.
Gustavo Mendes
Na sequência, o artista conta que decidiu se afastar inicialmente porque precisava cuidar da própria saúde mental. Vindo de Guarani, no interior de Minas Gerais, e de uma família humilde, ele alcançou grande projeção nacional ainda jovem e precisou aprender a lidar com uma realidade para a qual não tinha referências.
“Eu vim de uma cidade pequena do interior de Minas, de uma família muito humilde, e de repente alcancei uma projeção enorme muito jovem. Não tinha referência para lidar com aquilo e, no fim das contas, fui aprendendo tudo meio sozinho”, destaca.
Contudo, depois de cuidar da saúde, o humorista voltou a observar o mercado e percebeu que o consumo de comédia havia mudado. Acostumado à televisão e ao teatro, ele notou crescer um formato de conteúdo digital em que a interação com a plateia e os vídeos curtos ganhavam cada vez mais espaço entre o povo brasileiro.
“Passei a vida fazendo televisão e teatro e, de repente, a forma de consumir humor era outra”, explica. Mesmo assim, naquele momento, preferiu observar as transformações em vez de tentar se adaptar imediatamente.
A retomada aconteceu quando ele percebeu que havia espaço novamente para seu estilo. Com uma nova equipe, o irmão ao seu lado e Lucas Ribeiro Arruda, seu sócio e noivo, Gustavo diz estar feliz com o momento que vive.
Além disso, a experiência mudou sua relação com a produtividade. No início da carreira, ele conta que aceitava agendas intensas por medo de perder oportunidades, chegando a fazer apresentações em cidades diferentes ao longo de um mesmo fim de semana, depois de gravar televisão durante a semana.
“Eu não sabia dizer não porque achava que oportunidade recusada nunca mais voltava”, explica. Todavi, hoje, a visão é outra. “O mundo não acaba porque você recusou um convite”, resume.

Gustavo Mendes
Depois de passar pelo sucesso precoce, pela pandemia, por uma baixa na carreira e pela pausa, ele encara a fase atual como uma oportunidade de trabalhar com mais maturidade.
Ter uma segunda chance aos 37 anos, com maturidade para desfrutá-la, muda absolutamente tudo”, diz. “Eu quero trabalhar muito, mas quero ter prazer na minha própria vida. Era isso que eu sempre sonhei e talvez só agora tenha entendido. Gustavo Mendes, ator e humorista.
Personagem Dilma Rousseff
A imitação de Dilma Rousseff foi um dos trabalhos que projetaram Gustavo nacionalmente e se tornou uma das marcas de sua carreira. Apesar do sucesso, o humorista conta que, durante muito tempo, teve receio de ficar conhecido apenas por essa personagem.
“Eu morria de medo de ser conhecido como ‘o cara de uma personagem só’. Então fiz tudo para provar que eu não era só aquilo”, relata.
Com o tempo, porém, passou a questionar a necessidade de se afastar de um papel tão importante em sua trajetória. Depois de participar de programas de televisão e trabalhar em diferentes projetos, percebeu que não precisava abandonar Dilma para demonstrar sua versatilidade.
“A grande surpresa foi retomá-la tantos anos depois e perceber o quanto as pessoas ainda queriam vê-la. E também perceber que nós construímos algo muito maior do que uma imitação”, declara.
Para Gustavo, a personagem ganhou características próprias e passou a ter uma relação particular com o público.“Ela virou uma personagem, com linguagem, personalidade, história e uma relação própria com o público. Hoje eu tenho muito orgulho disso.”
Em 2026, ele retomou a produção regular de vídeos com Dilma, agora com uma abordagem que considera mais madura. Segundo o humorista, a maneira de construir as piadas também mudou ao longo dos anos, acompanhando as transformações do ambiente político e da própria sociedade.
“Hoje ela praticamente não precisa de palavrão. O humor está muito mais no texto, na construção da piada, no contexto e numa análise um pouco mais profunda”, explica.
Gustavo avalia que o público já convive diariamente com uma quantidade enorme de informações e conteúdos rasos. Por isso, acredita que a comédia pode provocar reflexão sem perder sua principal função.
“As pessoas já são bombardeadas por bobagem o dia inteiro. Acho que existe espaço para rir e, ao mesmo tempo, sair dali com alguma reflexão, mas sem esquecer uma coisa fundamental: humor existe primeiro para fazer rir. Se vier reflexão junto, ótimo. Mas ela entra de carona”, diz.
Limites para fazer piadas
Em um cenário de forte polarização política, Gustavo também reflete sobre os assuntos que podem virar piada. Para ele, não existe necessariamente uma lista de temas proibidos, mas é fundamental considerar o contexto e o momento em que determinada situação é abordada.
“Para mim, todo assunto pode virar piada. A questão não é necessariamente sobre o que você faz a piada. Muitas vezes é quando você faz”, reflete.
Para explicar seu ponto de vista, o humorista compara experiências dolorosas a feridas que, com o tempo, se transformam em cicatrizes. Algo que provocou sofrimento no passado pode, anos depois, ser lembrado com humor. O problema, segundo ele, é transformar a dor de alguém em motivo de riso antes que exista espaço para lidar com ela.
“Existem dores sociais que ainda são feridas abertas. E eu não vejo graça na pressa que algumas pessoas têm de transformar a ferida aberta do outro em piada”, declara.
Ele resume seu limite a partir dessa diferença: “Uma coisa é rir de uma cicatriz. Outra é cutucar uma ferida só para ver alguém sentir dor.”
Apesar de já ter construído uma trajetória na televisão, no teatro, no cinema e na internet, Gustavo ainda tem uma lista de objetivos profissionais. Um dos principais é comandar um programa de entretenimento que reúna humor, informação, conversas e diferentes formatos.
“Eu quero muito ter um programa de televisão. Um programa de entretenimento que tenha humor, informação, conversa, variedade. Não necessariamente um ‘programa de humor’, mas um programa que tenha humor dentro dele”, conta.
O artista também deseja participar de uma novela desde o início. Ele já esteve em produções, incluindo uma participação em “Cheias de Charme” que acabou se estendendo até o final da trama, mas quer viver todas as etapas de uma produção, da preparação à construção do personagem.
Outro objetivo é fazer mais cinema. Gustavo participou de “Férias Trocadas”(2024), dirigido por Bruno Barreto, experiência que despertou seu interesse pela linguagem cinematográfica.
“Cinema me encantou profundamente. É outra dinâmica, outra linguagem, outra dimensão do trabalho de ator”, afirma. “Estou vivendo o momento mais feliz da minha carreira”
Ainda que leve uma vida corrida, Gustavo diz que hoje tenta preservar os momentos de descanso. Para isso, organiza dias específicos para gravações e apresentações e procura proteger um período da semana para não trabalhar.
“Descobri que descanso não é o contrário de produtividade. É parte dela”, afirma. A mudança também se reflete na maneira como enxerga a própria trajetória.
“Eu estou vivendo o momento mais feliz da minha carreira e também da minha vida pessoal”, acrescenta.
Agora, mais maduro e com novos projetos, ele diz estar satisfeito com o artista que se tornou, sem perder a vontade de experimentar novas linguagens e continuar trabalhando.
“Continuo atento ao que é novo, às mudanças, às novas linguagens, mas sem abrir mão de coisas que, para mim, são essenciais: ética, cuidado com o outro, zelo, respeito e amor ao próximo”, conclui.
‘Mais Atrevido’ segue em cartaz em São Paulo
O retorno de Gustavo aos palcos também marca a temporada de “Mais Atrevido”, show que reúne textos de sua trajetória, histórias inéditas, improvisos e personagens conhecidos do público, incluindo Dilma Rousseff. O espetáculo ainda traz números musicais inspirados em sucessos eternizados nas vozes de Maria Bethânia, Ana Carolina e Alcione.
A temporada foi prorrogada até 29 de outubro de 2026, com apresentações às quintas-feiras, às 20h30, no Teatro Mooca, em São Paulo. Os ingressos custam R$ 60 (meia-entrada) e R$ 120 (inteira), e a classificação indicativa é de 14 anos.






