Para analistas, as incertezas nas negociações entre Washington e Teerã, além das dificuldades para normalizar o fluxo pela via -por onde passa cerca de 20% da produção mundial de petróleo e gás natural liquefeito-, tendem a manter a volatilidade nas cotações da commodity.
FERNANDO NARAZAKI E MATHEUS DOS SANTOS
SÃO PAULO, SP () – Mesmo com a reabertura do estreito de Hormuz, anunciada pelo Irã nesta sexta-feira (17), os preços do petróleo devem seguir pressionados por meses.
Para analistas, as incertezas nas negociações entre Washington e Teerã, além das dificuldades para normalizar o fluxo pela via -por onde passa cerca de 20% da produção mundial de petróleo e gás natural liquefeito-, tendem a manter a volatilidade nas cotações da commodity.
Ainda assim, o anúncio do Irã derrubou os preços nesta sexta, levando o barril a cair para a casa dos US$ 86, no menor nível em mais de um mês. O preço do Brent, referência internacional, com vencimento em junho deste ano fechou o dia a US$ 91,57, menor valor desde 10 de março, com queda de 7,87%.
O Ministério de Relações Exteriores do Irã anunciou nesta manhã a reabertura do trânsito marítimo por onde passa 20% da produção mundial de petróleo e gás, mas limitou a condição a navios que tenham autorização iraniana, o que não é aceito pelos EUA.
“A passagem de todos os navios comerciais pelo estreito de Hormuz foi declarada totalmente aberta para o período restante do cessar-fogo”, afirmou Abbas Araghchi, chanceler do Irã, em post na rede social X.
Segundo um alto funcionário do regime iraniano ouvido pela agência de notícias Reuters, todos os navios comerciais, incluindo embarcações norte-americanas, podem navegar pelo estreito, embora seus planos precisem ser coordenados com a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã.
Apesar de o Irã ter anunciado a reabertura, ela ocorre em condições muito específicas e está sujeita ao pagamento de taxas. Além disso, os EUA não encerraram o bloqueio marítimo imposto ao estreito.
A decisão do Irã foi elogiada por Donald Trump. “OBRIGADO!”, escreveu o presidente norte-americano em sua plataforma Truth Social.
Analistas no setor afirmaram que a medida deve ser tratada com cautela e que o tráfego marítimo deve demorar a ser retomado.
“A abertura do estreito de Hormuz é um importante passo para normalizar o trânsito pela via navegável. Mas a reabertura é limitada em escopo”, afirmou James Reilly, economista sênior de mercados da Capital Economics.
Para o diretor global de macroeconomia do ING, Carsten Brzeski, a reabertura ajudará a reduzir o preço da commodity nos próximos dias, mas a dúvida é quando as empresas de transporte marítimo vão retomar o fluxo. “Seguradoras e armadores ainda podem hesitar em enviar navios, o que significa que, mesmo que teoricamente aberto, o tráfego só aumentará gradualmente”, analisou.
A Hapag-Lloyd, uma das maiores empresas do setor, disse estar avaliando a situação. “Por enquanto, ainda estamos evitando passar pelo estreito. Provavelmente passaremos, mas ainda é cedo para confirmar”, declarou um porta-voz da empresa à Reuters.
De acordo com empresas do setor, cerca de 200 navios passaram pelo estreito desde 28 de fevereiro, quando começou a guerra, sendo que o tráfego antes do conflito era, em média, de 140 embarcações por dia.
Nesta sexta-feira, a empresa de dados marítimos Kpler informou que três navios-petroleiros do Irã deixaram o golfo Pérsico pelo estreito de Hormuz na última quarta-feira (15). As embarcações foram as primeiras sob sanções a atravessar o local desde que os EUA passaram a bloquear o tráfego na segunda-feira (13).
Nenhum navio-petroleiro iraniano havia saído do golfo pelo estreito com uma carga de petróleo desde 10 de abril, de acordo com a Kpler. Dados da empresa indicam que cerca de 900 navios ficaram retidos no Golfo Pérsico ao longo da guerra.
A queda nas cotações do petróleo pressionou a Bolsa brasileira, que recuou 0,55%, a 195.733 pontos, nesta sexta-feira. O dólar caiu 0,18%, cotado a R$ 4,983.
As ações preferenciais da Petrobras, que garantem prioridade no recebimento de dividendos, caíram 4,85%. Na mínima, os papéis chegaram a recuar 7,6%.
Outras empresas do bloco petrolífero também registraram quedas. Prio e PetroRecôncavo caíram mais de 4% cada; Brava, 6%.
Analistas dizem que a reabertura definitiva do estreito deve continuar pressionando as ações de petroleiras brasileiras, mas advertem que o quadro de incerteza dificulta previsões.
Bruno Cordeiro, especialista em energia da StoneX, destaca que o cenário de incerteza persiste. “A retomada dos fluxos de petróleo e derivados depende de condições de segurança e de sinalizações mais firmes.”
Ele também aponta indefinições nas negociações entre Washington e Teerã. “Os próximos dias serão determinantes para entender a extensão dessa decisão do Irã.”
No caso específico do Brasil, Cordeiro avalia que uma reabertura definitiva tende a pressionar os preços do petróleo e impactar as receitas de exportação -o que pode pesar sobre os papéis de empresas do setor.
“A retomada do fluxo no estreito, contudo, tende a ser gradual. A normalização logística e produtiva no golfo Pérsico pode levar meses, o que tende a manter os preços do petróleo valorizados no curto prazo”, afirma.
Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil, vê uma melhora global do humor com a reabertura do estreito, mas ressalta que o momento ainda exige precaução.
“As falas de Donald Trump sobre o bloqueio e a tensão persistente com o Irã mantêm o mercado em modo de cautela, reduzindo a confiança de que a trégua seja duradoura”, afirma.
Algo similar foi destacado por André Valério, economista sênior do Inter. “Apesar de o Irã ter anunciado a reabertura do estreito, ela ocorre em condições muito específicas. […] Uma normalização do fluxo ainda parece distante e podemos ver o preço do petróleo pressionado devido às condições adversas de oferta”, diz.
BOLSAS CAEM NA ÁSIA E SOBEM NA EUROPA COM REABERTURA
O anúncio também impactou Bolsas globais. As Bolsas da Europa registram alta nesta sexta-feira, enquanto a maioria dos mercados na Ásia fechou em baixa. O índice CSI300, que reúne as principais empresas listadas em Xangai e Shenzhen, caiu 0,17%, e o SSEC, em Xangai, devalorizou 0,1%. As Bolsas de Tóquio (-1,75%), Hong Kong (-0,89%) e Seul (-0,55%) também sofreram perdas.
Já na Europa, o índice Euro STOXX 600, referência na União Europeia, fechou em alta de 1,6%, em uma tendência que foi repetida em Frankfurt (2,25%), Londres (0,73%), Paris (1,97%), Madri (2,18%) e Milão (1,75%). Nos EUA, a Dow Jones fechou em alta de 1,79%, seguida por Nasdaq (1,52%) e S&P 500 (1,20%).
Preços do petróleo devem seguir em alta volatilidade mesmo com reabertura de estreito de Hormuz
Fonte: Gazeta Mercantil – Economia






